“A Rainha Diaba” volta ao trono da excelência

(Fotos: Divulgação)

De luto pela morte do ator Milton Gonçalves (1933-2022), um ícone da luta antirracista, falecido no dia 30 de maio, o Brasil vai redescobrir uma de suas mais potentes interpretações – o criminoso queer vivido por ele em A Rainha Diaba, de 1973 – na 46. Mostra Internacional de São Paulo. Nesta
terça (dia 25), 21h10 (hora do Brasil), no CineSesc, a maratona cinéfila paulistana vai revisitar o filme de culto que fez de Antonio Carlos da Fontoura um sinónimo de excelência nas veredas do thriller policial de uma América Latina assolada por ditaduras. Chegou à Quinzena de Cannes com essa longa-metragem e saiu de lá aplaudido. O seu protagonista ganhou o troféu Candango de Melhor Ator quando Fontoura exibiu a produção no Festival de Brasília.


A trama foi estruturada pelo cineasta em dupla com o dramaturgo Plínio Marcos (1935-1999). No guião, somos levados ao quarto dos fundos de um antro de prostituição onde vive o marginal Rainha Diaba. De lá, ele controla com mão de ferro o crime organizado da cidade. Para evitar que um de seus homens de frente caia nas mãos da polícia, Rainha Diaba encarrega o seu principal aliado, Catitu (Nelson Xavier), de inventar um bandido perigoso e entregá-lo à polícia no lugar do homem procurado. Catitu sai pelas ruas e encontra Bereco (Stepan Nercessian), um jovem sustentado pela cantora de cabaré Isa (Odete Lara). Ele atrai Bereco para uma série de crimes, projetando-o como um perigoso bandido.

A Mostra vai ver as peripécias da Rainha Diaba graças à restauração (e criação da cópia em DCP 4K) realizada pelo festival Janela de Cinema de Recife, em parceria com a organização Cinelimite e o laboratório Link Digital/Mapa Filmes. Os materiais originais são provenientes do Arquivo Nacional e do Centro Técnico do Audiovisual (CTAv). Na entrevista a seguir, Fontoura – cuja carreira ganhou holofotes com o êxito de Copacabana Me Engana em 1968 – avalia o restauro e fala da carreira do filme nos ecrãs do seu país.

Qual foi o aspecto mais surpreendente da atuação de Milton Gonçalves no filme? O que ele te trouxe de mais valioso?

O que Milton me trouxe de mais valioso foi a sua leitura da personagem. O Milton trouxe a Rainha pronta, com aquela mistura de sangue e lantejoulas que ela requeria. Mas não diria que foi surpreendente, era isso mesmo que eu esperava dele.

Como foi a receção de público e crítica para a “Rainha Diaba” no Rio e em São Paulo, que agora te acolhe?

A “Rainha Diaba” fez um excelente público no lançamento, em 1974. Chegou perto de um milhão de espectadores. Não sei bem que público teve em São Paulo, mas acho que foi menor do que o carioca. Não participei do lançamento no Brasil, pois estava em Cannes apresentando o filme na Quinzena dos Realizadores. Quanto às críticas, o filme recebeu avalições bastante positivas. Soube que os ingressos para a sessão paulista de terça feira esgotaram em 10 minutos. Acho que vou encontrar em São Paulo um público tão vibrante e engajado quando o das últimas sessões do filme no Rio e em Recife.

Como foi o trabalho com o dramaturgo Plínio Marcos (autor de “Abajur Lilás” e “Barrela“) na prática da confecção do projeto?

Esse, sim, foi um resultado surpreendente. Já com a linha narrativa traçada, procurei o Plínio Marcos em busca do mergulho nas personagens do baixo mundo que ele tinha evidenciado nas peças “Navalha na Carne” e “Dois Perdidos Numa Noite Suja“. Pois não é que entre outros personagens incríveis que trouxe, foi ele que me ofereceu a Rainha Diaba, um traficante efeminado que era o terror do Porto de Santos, onde o Plínio perambulou na juventude.

O que esperar da sessão de “Rainha Diaba” na Mostra?

Acho importante dizer que esta exibição na Mostra de São Paulo faz parte de um projeto da Cinelimite, de William Plotnick, que, totalmente entusiasmado com “A Rainha Diaba“, uniu esforços a dois outros admiradores do filme – os cineastas Kleber Mendonça Filho e Zelito Viana – para, com o acompanhamento da restauradora Debora Brutuce, produzirem na finalizadora Link Digital, a maravilhosa versão 4K do filme. Versão que está a surprender as plateias.

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