Sinónimo vivo de invenção, nos palcos e nos ecrãs onde se estreou há 21 anos, em “Uma Vida Em Segredo” (2001), Sabrina Greve olha para a realização como um novo palco para as suas invenções, com direito a uma estreia no comando de longas-metragens de ficção, pelas vias do terror: “O Porão da Rua do Grito”. Neste sábado, a Sala Grande Otelo da Cinemateca Brasileira exibe a produção, às 21h30, no programa da 46ª Mostra de São Paulo.
Incluído na maratona cinéfila paulista na seleção competitiva de novas vozes na realização, o filme (assustador) tem mais um par de sessões no evento: domingo, às 16h, no Circuito SPCine – CFC Cidade Tirdentes; e dia 26, quarta-feira que vem, às 16h40, no Cine Marquise 2. A trama combina a estrutura fabular de “Maria e João” (mas sem açúcar) com “Poltergeist” (1982), de Tobe Hooper. Na trama, Jonas (Giovanni De Lorenzi) e Rebeca (Carol Marques da Costa) carregam a herança de uma família que um dia foi muito rica. Hoje, ela se encontra numa situação económica precária, mum casarão incompatível com a situação financeira atual deles. São órfãos que vivem sob a tutela da avó paterna, que se encontra acamada, obrigando-os a tomar alguma atitude em relação ao casarão onde moram. Jonas, o irmão mais novo, é muito apegado ao passado, e vive em uma realidade paralela construída na sua cabeça. Já Rebeca não aguenta mais administrar sozinha a responsabilidade do sustento da pequena família, e quer se livrar desse passado tão caro ao irmão. Para piorar, uma criança chamada Lu (Nycolas França), vive trancada no porão da casa, e ninguém pode saber da sua existência. Essa situação corrobora ainda mais para o apego de Jonas em relação ao casarão e o leva a passar dos limites (do risco… para os outros) em suas peripécias.
Na entrevista a seguir, Sabrina fala de seus planos como realizadora.

Como se dá a sua relação com as narrativas do terror?
A minha experiência como atriz se somou à vontade de investigar mais a fundo a especificidade da atuação no horror. Uma das metas maiores do filme foi arrancar dos atores interpretações potentes. Nem sempre vemos boas atuações em filmes de género. Tem realmente um domínio de expressão que deve ser arquitetado, e arrisco dizer que é preciso uma inteligência cénica parecida com a comédia, por mais bizarro que isso possa parecer.
Existe um clima de claustrofobia que amarra todo o filme. O quanto essa sensação foi procurada nas filmagens? O quanto nasceu na montagem?
Estudei muito os códigos do género, na feitura do guião, em parceria com a Michelle Ferreira; criei um storyboard detalhado; e houve o trabalho da montagem, essencial para a soma de todas as ambições estéticas do filme. É preciso reiterar a dependência de uma boa trilha [bandapt] sonora para o horror acontecer. Quando chegamos na etapa sonora, senti que estávamos reescrevendo um novo guião, pois a música é dramaturgia também. O processo da pós-produção foi muito trabalhoso, mas tive a sorte de contar com a Thais Bologna, na montagem, e com o Mateus Alves, cuja banda-sonora superou as minhas expetativas. Fora todo o trabalho de efeitos especiais – capítulo à parte de construção.
Como ficam os seus projetos como atriz agora? O quanto “Uma Vida Em Segredo”, a tua longa-metragem de estreia como protagonista, foi determinante para o trajeto que percorreu como atriz? O que tem de Suzana Amaral no teu ‘Porão’?
A Suzana Amaral foi a minha mestra no cinema, assim como Antunes Filho foi no teatro. Acabei me tornando também professora, muito inspirada pela dedicação deles na formação de jovens atores. Sigo em trabalho de pesquisa constante de técnicas de atuação para o audiovisual, e sinto que tenho muito a contribuir nessa área. Dirigi esse ano uma série adolescente para a HBO, participando também na formação dos jovens atores. A trajetória de atriz permanece, mas por ora, gostaria de ampliar o meu trabalho na direção.

