Admirado no Brasil pela sua militância antirracista, pelas suas amplas ferramentas dramáticas e por um carisma capaz de traduzir a resiliência inata do seu país, Lázaro Ramos volta às telas da sua pátria esta quinta-feira, à frente de um “Rashomon” nordestino chamado “As Verdades”, isto enquanto contabiliza milhares de espectadores com o seu primeiro exercício como realizador de longas-metragens. “Medida Provisória” já vendeu 461 mil bilhetes em terras brasileiras. Essa distopia antirracista baseada na peça teatral “Namíbia, Não!”, de Aldri Anunciação, começou a sua carreira pelo Festival de Moscovo e teve o seu guião premiado em eventos como Huelva, em Espanha, e em Memphis, nos Estados Unidos. Em dezembro, levou o troféu Redentor de Prémio Especial do Júri no Festival do Rio. O seu prestígio só faz crescer.
E, em fase de êxito, ele retorna ao grande ecrã como astro do novo exercício autoral de José Eduardo Belmonte, da franquia “Alemão” (2014-2021). Ele é Josué, um policia incumbido de resolver um crime contra o empresário Valmir (Zécarlos Machado), num pequeno município do sertão. Assim como acontecia no filme de culto de Akira Kurosawa (1900-1998) citado acima, a investigação de Josué se envereda por três pontos de vista. Primeiro: o crime é contado por Cícero (Thomás Aquino), um matador de aluguer. Segundo: a história é narrada pelo ponto de vista de Francisca (Bianca Bin), a noiva do empresário. Terceiro: é revelado o ponto de vista de Valmir (Machado), que sobreviveu.
Na conversa seguir, Lázaro avalia a dimensão trágica de Josué e faz um balanço da sua carreira.
Qual é o lugar de herói ou de anti-herói que “As Verdades” te oferece no papel de um policia? Que dramaturgia o Belmonte abre para você?
O que mais me interessou no trabalho do Belmonte, tanto no período do ensaio quanto observando a maneira que ele conduzia o filme, foi o facto de que ele não criou um herói. A minha personagem é um anti-herói, não por uma ação dele, mas, sim, pela omissão. Uma omissão no que diz respeito ao olhar dele pelas mulheres do filme. Omissão no que diz respeito ao que faz com a própria vida e isso traz uma profundidade à personagem. E, no geral, filmes de suspense policial nem sempre dão essa chance. Acho que é uma escrita que vai para além do roteiro do Pedro Furtado e do George Moura. É a dramaturgia que o Belmonte escreve paralelamente as palavras.
Que lições sobre o atual estado do mercado exibidor você tira da sua experiência com “Medida Provisória”, visto por 461 mil pagantes no Brasil? Qual foi a resposta de público que o filme te proporcionou?
O mercado exibidor continua viciado, sem entender que cada filme tem o seu público. Sem entender que cada filme precisa de estratégias diferentes, muito bem apuradas, para atrair o público do seu filme. Eu tenho muito medo das fórmulas de venda dos filmes. Com “Medida Provisória”, mesmo com todos os entraves e desafios, conseguimos ser muito bem-sucedidos justamente por isso: entendemos qual era o nosso público. Assim, a nossa comunicação se espalhou desde a maneira como a assessoria de imprensa trabalhou, até as peças de internet, os lugares que íamos, quem ativamos, a disponibilidade do elenco, o empenho da equipa. E esses gestos fizeram a diferença. O “Medida Provisória” é um case. Inclusive, neste momento, estou estudando, tentando entender quais foram os acertos para virar uma referência para os próximos projetos.
Que projetos você tem para 2022 e 2023 para a Amazon Prime e para os cinemas? Em que pé está a sua comédia sobre a paternidade com a Paolla Oliveira, “Papai é Pop”? Sai este ano? O que tem para fazer como realizador nos próximos meses?
Para este ano, tenho só projetos em desenvolvimento na Amazon Prime. Neste momento, atuo em “As Verdades“, que estreia agora dia 30 de junho, e em “Papai é Pop”, baseado nos livros do Marcos Piangers, dirigido pelo Caíto Ortiz. Esse filme chega em agosto, o mês do Dia dos Pais no Brasil. Estou muito feliz com esse projeto porque, há muito tempo, queria poder falar sobre paternidade no cinema e não tinha encontrado um projeto. É um tema que quero voltar a falar várias vezes nas histórias que contar.
Foi comovente a sua dupla participação no primeiro episódio da nova temporada de “Sob Pressão”, fazendo o papel de gémeos no primeiro episódio da nova temporada, que está na Globoplay. O que uma dramaturgia de melodrama social como aquela abre de espaço para a TV no Brasil?
Está aí um projeto que é uma referência positiva em todos os sentidos, no desenvolvimento de personagem, nos ambientes em que se passa… Tem relevância para o público brasileiro e, ainda assim, entretém e comove. Fiquei muito feliz em ter participado do “Sob Pressão”, pois tem qualidade na execução ali. É impressionante ver como aquela equipa mantém a sua harmonia depois de trabalhar junta por tanto tempo. Fiquei muito feliz e comovido de ter participado e ter notado o jeito que eles fazem. Essa harmonia ali faz toda a diferença.

