Apesar de vitórias recentes na Berlinale (com a curta “Manhã de Domingo“, o Teddy para “Três Tigres Tristes” e o prémio do júri popular para “Fogaréu“) e no IndieLisboa (com a consagração de “Mato Seco em Chamas“), o cinema brasileiro não teve filmes inéditos selecionados para Cannes em nenhuma mostra, sendo representado apenas na Classics com a cópia restaurada de uma de suas mais aclamadas produções: “Deus e o Diabo na Terra do Sol“. Mas as conversas pelos corredores do Palais des Festivals, acerca dessa ausência, vão além das reclamações contra o desmonte cultural do governo Bolsonaro e olham para o futuro. Aliás, um futuro que vai se realizar logo ali, de 13 a 18 de junho, também em França, mas na cidade de Annecy.
Lar do mais famoso festival de animação do mundo, a região vai acolher a primeira projeção mundial de “Perlimps“, aventura fantástica que marca o regresso de Alê Abreu às salas, depois de ter sido nomeado ao Oscar com “O Menino e o Mundo“, em 2016. Na entrevista a seguir, Abreu, hoje com 51 anos, conta ao C7nema o que é esse novo projeto e comenta o que pensa da arte de animar no seu país, neste momento.
De que maneira Perlimps dá espaço para a abordagem existencial das suas longas-metragens anteriores e de que forma ele conversa com a estrutura narrativa lúdica de “O Menino e o Mundo“? O quanto esse novo filme conversa com as cartilhas da aventura?
Assim como nos outros filmes que fiz, há em Perlimps um universo paralelo ao mundo. Boa parte do filme se passa numa floresta multicolorida, com pirâmides, ruínas de cidades esquecidas, montanhas de gás. Há um universo fantástico que é uma metáfora da infância. E esse lugar, que chamamos de Bosque Encantado, foi cercado pelos terríveis Gigantes, que se preparam para a guerra. É nesse contexto que duas crianças-bicho, agente-secretos de reinos rivais, encontram-se, descobrem que tem a mesma missão-secreta e que precisam se unir.

Qual é a sensação de estar de volta ao Festival de Annecy, cerca de oito anos após a sua consagração por lá?
Estamos todos, equipa do filme, felizes e ansiosos com a primeira exibição do filme em Annecy. O festival é muito alto astral. O lugar é lindo, a sala é ótima o público é de amantes da animação.
Como você avalia a atual estrutura da indústria animada no Brasil e o que “O Menino e o Mundo” deu a ela de mais significativo?
Sem dúvida existe um crescimento do setor no Brasil, que segue sua vocação de ser um criador de conteúdo. Uma indústria amparada pelas leis de incentivo e recentes demandas dos streamings. “O Menino e o Mundo” jogou um holofote sobre isso.
Qual é o elenco de vozes escalado para “Perlimps” e como foi dirigi-lo?
Giulia Benite, a Mônica de Laços, e Lorenzo Tarantelli são as vozes originais de Bruô e Claé, os dois personagens principais. Stênio Garcia fez João-de-Barro. As vozes foram dirigidas por uma dupla incrível. Melissa Garcia fez a direção de voz e Viviane Guimarães, foi assistente de direção. Eu acompanhei tudo bem de perto e direccionei quando foi preciso.

