Amparado num desempenho arrebatador de Dira Paes, “Pureza” vem correndo o mundo desde 2019, quando passou pelo Festival do Rio, arrebatando elogios pelo seu diálogo depurado com o melodrama ao reconstituir a luta real de uma mulher contra o trabalho escravo dos novos tempos. Previsto para estrear no dia 19 de maio, a longa-metragem de Renato Barbieri (um dos talentos da cena brasiliense, radicada no Distrito Federal, o coração político do Brasil) usa a peleja de Pureza Lopes Loyola para salvar o seu filho. O rapaz, Abel (Matheus Abreu), desaparece após partir para o garimpo na Amazónia. Em busca dele, Pureza (Dira) acaba por encontrar um sistema de aliciamento e cárcere de trabalhadores rurais. Ela se emprega numa fazenda, onde testemunha o tratamento brutal de trabalhadores e o desmatamento da floresta. Escapa e denuncia os factos às autoridades federais. Sem credibilidade e lutando contra um sistema forte e perverso, ela retorna à floresta e começa uma cruzada antiescravocrata. Barbieri, conhecido por “Cora Coralina – Todas as Vidas” (2017), fala ao C7nema sobre o seu mergulho na história de Dona Pureza.
Qual é o limite de melodrama que você perseguiu, conscientemente, para Pureza, travando um diálogo com uma das linhagens mais raras e potentes do género, que é o folhetim social, vide clássicos como La Ciociara, com Sophia Loren, ou Not Without My Daughter, com Sally Field?
Sempre desejei fazer um filme que desse um choque de realidade, não só dando visibilidade a um tema invisível e secular no Brasil, mas criando um filme imersivo, que coloque o espectador dentro da cena do crime escravagista na Amazónia, de modo que este sinta e viva, na experiência cinematográfica, o pathos de Pureza, o seu drama. Tenho uma atração natural pelo neorrealismo Italiano e Pureza navega, de um modo ou de outro, por essas águas. A construção da emoção, na empatia com a mulher protagonista em Pureza, é algo perseguido e executado.
De que maneira seus filmes e mesmo episódios de séries sobre grandes mulheres brasileiras cevaram o caminho para Pureza? Que códigos do feminino usou?
Pureza está alinhado com o arco de filmes de conteúdo que decidi trilhar desde 1985, quando realizei o meu primeiro documentário de impacto, intitulado Do Outro Lado da Sua Casa. É uma curta sobre o protagonismo das margens, com deserdados na cidade de São Paulo. Com o Do Outro Lado…, passei a desejar “sair da bolha” e mergulhar no Brasil profundo. Nessa jornada, fui conhecendo pessoas incríveis. Aprendi a abordar e a penetrar nos mais variados estratos culturais e sociais de forma horizontal. Arrogância ou supremacismo seriam um erro, pois distanciam-te das pessoas. O respeito aproxima. Assim, fui chegando, conhecendo, conquistando confiança e filmando. Existe uma equidade de género nessas escolhas e tive a honra e a oportunidade de fazer filmes sobre e com mulheres fortes: Cora Coralina, Maria de Lourdes Siqueira, Conceição Evaristo, Sônia Guajajara, Fernanda Montenegro, Dira Paes e Pureza Lopes Loyola, entre muitas outras. Códigos femininos: a cumplicidade de Pureza com outras mulheres, a prostituta Osmarina e a auditora fiscal do trabalho Elenice; a sagacidade; o uso da mentira e da sensualidade para despistar seus algozes; a resiliência; a determinação; o amor.
De que maneira o cinema que você faz se imbui da tradição brasiliense, seja no documentário, seja na ficção? Que cinema reside na sua região e o quanto você o expandiu?
Brasília tem uma tradição cinematográfica ancorada originalmente no Curso de Cinema da UnB, um dos primeiros do Brasil, e no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o mais antigo em atividade. Além disso, existe uma seara documentarista fértil, liderada desde sempre pelo Mestre Vladimir Carvalho, uma referência definitiva para todos nós, que vem inspirando muitos/as realizadores/as, como Marcelo Dias, Delvair Montagner e Edileuza Penha de Souza. Eu mesmo sou documentarista há tempos e realizei, nesses anos, dezenas de obras documentais. Boa parte dessas, realizei com o historiador, roteirista e pesquisador Victor Leonardi. No campo da ficção, existe uma grande diversidade de géneros, não propriamente um género dominante, com nomes que vão desde André Luiz Oliveira e Adirley Queiroz, a Zé Eduardo Belmonte, Renê Sampaio, Iberê Carvalho, Cibele Amaral, só para ficar em alguns expoentes. O Cinema Brasiliense que Marcus Ligocki Jr. (produtor e roteirista de Pureza) e eu fazemos e buscamos fazer é um “cinema imersivo”, com valores de produção de impacto e que consiga atravessar a fronteira do país e atingir o grande público, aqui e em outros mercados. Até porque, não consigo mais pensar cinema somente para o mercado brasileiro: essa conta não fecha. Creio que seja essa a expansão que você me pergunta. Além disso, penso que o cinema tem um papel social relevante na formação intelectual e sensível da população, gerando atitudes antifascistas, antirracistas, feministas e libertárias. Sejamos todos feministas e abolicionistas!
O que uma atriz do quilate de Dira Paes agrega de coautoria a um projeto como Pureza?
Dira é uma gigante. O Cinema corre nas suas veias. Dira tem consciência da câmara. Ela sabe o que está sendo filmado e tem uma visão dramatúrgica refinada. Ela chega às raias da sutileza e isso me interessa. Além de ser uma mestra, ela é generosa com o elenco como um todo, dá atenção e orientação aos mais inexperientes. Dira abraça o filme como um todo. Deu enormes contribuições ao roteiro, meu e do Marcus Ligocki. Aprendi muito de Cinema com a Dira fazendo “Pureza“.

