Alemão 2: José Eduardo Belmonte regressa ao thriller

(Fotos: Divulgação)

Prestes a estrear “Alemão 2“, filme encarado pelos exibidores brasileiros como um potencial blockbuster e farejado por teóricos e críticos como um riquíssimo tecido sociológico a ser desfiado na discussão das mazelas raciais e políticas do Rio de Janeiro, José Eduardo Belmonte abre mais um ano com o aríete da diversidade.

Em streamings multinacionais como o Star Plus, o realizador é representado por uma comédia: “O Auto da Boa Mentira” (2021). Na Netflix, tem “Entre Idas e Vindas” (2016), um refrescante flerte com a romcom. Na GloboPlay, ele brinca com a tradição brasileira da chanchada, as comédias musicais, com “Billi Pig“, produção que abriu a Mostra de Tiradentes em 2012. Mostra essa que, em 2009, prestou-lhe uma homenagem pelo conjunto de uma obra que era então pequena. Hoje, 19 anos após a sua estreia em longas-metragens, expandiu-se nas mais variadas latitudes, alcançando picos de prestígio quando ele conquistou o troféu Redentor de Melhor Filme do Festival do Rio com “Se Nada Mais Der Certo“, em 2008, e quando ganhou prémio principal do MIP TV, prestigiado festival internacional de televisão, realizado em Cannes, pela série “Carcereiros“, em 2017. Mas agora, a partir desta quinta-feira, é a vez de ele encarar o mercado na sua pátria natal.

José Eduardo Belmonte

Visto por 955,8 mil pagantes na sua carreira em circuito e reelaborado como um híbrido de jornalismo e ficção numa série semidocumental da TV Globo, o primeiro “Alemão” tornou-se uma referência geopolítica na mistura entre dramaturgia e reflexão de sociologia no cinema. A produção é da oscarizada RT Features de Rodrigo Teixeira, a mesma de “Call Me By Your Name” (2017). Essa parte II foi rodada em terras cariocas em 2019 e teve a sua primeira projeção pública no desfecho do 23º Festival do Rio, em dezembro passado. Escrita por Marton Olympio e Thiago Brito, a trama retoma a luta contra o tráfico num subúrbio que se estende de Bonsucesso à Penha a partir do refluxo gerado pela carnificina retratada do filme original, do qual ficou a resiliente Mariana, personagem vivida por Mariana Nunes, uma atriz em fase de apogeu.

Agora, Belmonte mostra uma operação de invasão. Sob o comando de Machado (Vladimir Brichta), a policia Freiras (Leandra Leal) e o seu colega Ciro (Gabriel Leone) realizam uma ação no Complexo do Alemão, oito anos após a instalação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Eles são instruídos a capturar, sem conflito, um dos maiores chefes do crime do morro: Soldado (Digão Ribeiro, numa interpretação magistral). Numa viragem inesperada, eles se veem presos em uma emboscada armada pelo grupo criminoso rival. Enquanto isso, a delegada Amanda (Aline Borges, em impecável atuação), a titular da missão, tenta enviar um grupo de resgate, mas enfrenta um problema corporativo igualmente desafiador.

Na entrevista a seguir, Belmonte explica ao C7nema os rumos dae sua trajetória no cinema e fala sobre o desenho social de seu regresso ao Complexo do Alemão.  
    

O que existe de trágico e o que existe de dramático no Rio de Janeiro que você retrata em Alemão 2?
A desigualdade social, o racismo estrutural e a forma com a qual esse racismo e essa desigualdade influenciam o desenho de segurança pública são tragédias brasileiras. Além do uso da força, a corrupção acima do serviço de inteligência e o cuidado com a polícia. E como essas se relacionam com a população, mais na lógica de um inimigo interno do que de um gestor público de questões complexas. 

Há espaço para o épico nessa realidade? Qual?

Épico no sentido de uma epopeia de heróis, em um país de cultura autoritária, é sempre uma fantasia perigosa. Mas também, pensado nessa mesma cultura autoritária brasileira que está impregnada no nosso tecido social, dizer que pode e que não pode, quer tutelar artistas e público, é um vício de muitos. Creio que, sendo responsável, deve-se buscar várias formas de contar histórias sobre o Brasil – isso é extremamente necessário. No “Alemão 2’, os policias não são os heróis. Se há heroísmo, está nas ações das personagens da Mariana Nunes, da Zezé Motta, de Dan Ferreira e no caminho de redenção do Soldado, personagem de Digão Ribeiro. Todas essas atuações estão magistrais, aliás. Em tempo: na série que dirigi, “Carcereiros”, o protagonista, Adriano, interpretado por Rodrigo Lombardi, era um herói do quotidiano: um pacifista empregado dentro de um universo violento e trágico, que não usava armas, apenas a palavra.

Você firmou, num dado ponto da sua carreira, uma parceria com Rodrigo Teixeira que rendeu uma série de filmes. Que descobertas ele proporcionou, não apenas como alguém que financiou ideias, mas como um criativo?

Considero que o Rodrigo é um produtor que realiza as ideias dele dentro de processos dialéticos, que são a essência do audiovisual: ampliam horizontes e entendimentos. Mas, sim, sinto que existe um universo que o interessa, principalmente nas suas ideias originais. Há sempre uma necessidade de investigar impulsos viscerais e há histórias de inimigos que precisam fazer um pacto – bem-sucedido ou não – pela sobrevivência.

Você é um dos mais ecléticos cineasta do país. Tamanho é o seu ecletismo que talvez seja difícil apontar uma linha autoral na sua narrativa, fora um certo desapego moral que te leva a sacrificar as personagens para mostrar falhas éticas ou mesmo fragilidades existenciais do Brasil. Identifica uma linha consciente que margeia as suas escolhas? Há uma identidade ou um “método Belmonte” no realizar?
Há realizadores que contam a mesma história e/ou da mesma forma. Billy Wilder falava que, quando o espectador saía de casa para ver um filme do Hitchcock, já se sabia mais ou menos que tipo de filme iria assistir. No caso do Wilder, não. Sempre me interessei mais por cineastas como Wilder, Howard Hawks, Johnnie To… Esses parecem-me estar em processos mais abertos. Se você observar com atenção, a forma e o estilo podem mudar (e mudam) nos meus filmes, mas sempre há pessoas a quererem sair do isolamento e tentando se achar com ajuda do outro. “A Concepção”, “Meu Mundo em Perigo”, “O Gorila”, “Alemão 2”… Isso está dentro do filme e dentro de mim.  É uma busca pessoal. O filme e a história determinam o jeito de fazer. E eu estou sempre a serviço disso.  

Que filmes você tem pela frente para tirar do papel? 

Sigo com a ideia de expandir mais as fronteiras, mas, agora, com mais maturidade, consciência e conhecimento técnico. Tenho projetos bem encaminhados para filmar além da fronteira brasileira. Uma das longas confirmados é uma história sobre imigrantes ilegais em Detroit, um thriller existencial que escrevi com Carlos Marcelo e Pablo Stoll.  Escrevi também um filme sobre a imigração, que conta a histórias de crianças atravessando o deserto do México para os EUA. No Brasil, vou filmar ainda um roteiro de suspense escrito pelo Raphael Montes. Também estou trabalhando em um filme de fantasia na Inglaterra e numa distopia no Japão. Apesar de a maior parte desses próximos projetos serem ambientados fora do país, são histórias intimistas: algumas, com um quê experimental. Estou bem animado com os meus novos filmes, sinto que estou a iniciar uma nova fase. E também estou muito interessado nas novas possibilidades do audiovisual. Tenho projetos de podcast de ficção, de um videojogo e um filme VR.

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