Nomeado ao Oscar de melhor montagem por “Cidade de Deus”, que completa 20 anos em 2022, Daniel Rezende passou ao posto de realizador de longas-metragens em 2017, sob os aplausos da crítica, graças à consagração de “Bingo, o Rei das Manhãs”. Mas foi com “Laços” que se transformou num campeão de bilheteira, ao adaptar uma banda desenhada dos irmãos Lu e Vitor Cafaggi sobre as inquietações afetivas da Turma da Mônica, personagens criados por Maurício de Sousa. A primeira longa-metragem em carne e osso das criações de Maurício vendeu cerca de dois milhões de bilhetes só no Brasil. Agora, no apagar das luzes de 2021, a turma regressa às telas, numa versão cinematográfica de outra BD dos Cafaggi: “Lições”. Rezende está de volta à direção. Montador de “A Árvore da Vida” (2011), ele fala ao C7 sobre as reflexões acerca da arte de crescer que tentou investigar as histórias em quadradinhos de Maurício. Estima-se um novo blockbuster para as crianças. A nova fita reafirma arquétipos: Mônica (Giulia Benite) continua arredia e impaciente; Cebolinha (Kevin Vechiatto, brilhante) segue ambicioso, com mania de “glandeza”; Magali (Laura Rauseo) continua um saco sem fundo em seu apetite voraz; e Cascão (Gabriel Moreira, um poço de carisma) permanece incomodado com o efeito que duas moléculas de Hidrogénio e uma de Oxigénio podem fazer ao seu corpo. Nesta conversa, o cineasta explica o desafio que teve pela frente neste projeto, que pode devolver ao cinema nacional o prazer de lotar as salas de exibição.
Como lida com as cores daquele universo do Maurício? Como é fazer jus ao colorido plástico de BDs que fizeram a cabeça de gerações leitores desde a invenção do cãozinho Bidu, em 1959?
Toda a transposição dos dois filmes contou com uma equipa muito grande, que é fã das BDs. Fizemos um estudo muito grande para o primeiro filme, não apenas da graphic novel dos Cafaggi, mas fomos ver os tipos de cores, de traço e formato que o Maurício usava em toda a sua linhagem de quadradinhos. Todas as escolhas partiam da premissa de como seria essa turminha se eles existissem de verdade. O “Laços”, em 2019, era dividido em três terços. O primeiro era o bairro do Limoeiro (a arena ficcional da trama) que a gente já sabia que seria muito colorido. Trabalhamos para isso, porém todas as cores daquele local precisavam ser mais rebaixadas para deixar o figurino sobrepor. Sabíamos que o segundo terço seria ambientado numa floresta, onde tudo é muito noturno, fazendo as cores sumir do fundo. No último terço, era a casa do Homem do Saco, predominaria o marrom e o preto. Sabíamos que era um filme de praticamente um figurino só. No “Lições”, mudamos dramaturgicamente o visual. Fizemos com que eles mudassem de roupa durante o filme, traduzindo um estado de crescimento, de crianças que estão entrando na adolescência. Trouxemos um figurino mais cromado.Tinha um estudo muito grande feito em cada cenário. Discutimos muito quais seriam as cores de cada objeto, para que o fotografo pudesse ressaltar ou não, em seu trabalho de iluminação, algumas cores. Na correcção de cor, trouxemos um filme mais cromado, para diferenciar do filme anterior.Ao mesmo tempo que se mantém o lúdico e o colorido, a gente avança na dramaturgia com escolhas formais que traduzem o estado das personagens. A partir do momento em que a Mônica chega à sua nova escola, nova a câmara passa a ser na mão. De alguma forma a gente quis amadurecer a dramaturgia, uma vez que se trata de um filme sobre amadurecimento.
A tradição do cinema americano de High School, como “O Rei dos Gazeteiros” (“Curtindo a Vida Adoidado” no Brasil) serviu como um parâmetro narrativo para si? Como é a verticalização na dramaturgia das personagens e no diálogo que esse filme estabelece com a tradição do cinema de escola?
No primeiro filme, “Laços”, essa tradição de narrativa escolar, já vinha da graphic novel dos Cafaggi pois a inspiração dela é totalmente “Goonies”, “Stand By Me”. Ela nasce desse cerne. Mas, agora, no “Lições”, não fui aí, nos filmes de high school, não. No “Lições”, fui beber nas personagens. Eu diria que é até um quase um drama super interno, onde vamos explorar questões de ansiedade, medo, solidão, saudades. Estamos nesse universo da escola, mas não fui beber no cinema escolar dos anos 80. Quando entendi que a versão cinematográfica da BD “Lições” falaria sobre crescimento, essa experiência do amadurecimento foi o meu norte durante o processo criativo. O cinema americano pega sempre atores muito mais velhos para interpretar mais novos. Não fugi disso. No “Laços”, as nossas estrelas tinham 10/11 anos e interpretavam crianças de 8/9 anos. No “Lições”, eles estavam fazendo pessoas de 11, já na casa de seus 12/13 anos. Eu não escondi esse crescimento do primeiro para o segundo filme. Fez muito sentido quando a gente trouxe um foco também para os pais, em especial quando se chega a uma frase da Mônica Iozzi em que ela diz: “A gente nunca deixa de crescer”. Estamos constantemente a aprender.
Nesta nova trama, a figura da jovem adulta Tina é fundamental por várias questões. Você confia uma dinâmica de aconselhamento para uma personagem que virou um signo da força do empoderamento feminino nos quadradinhos brasileiros. Quem é a Tina para você?
Desde os quadradinhos do Maurício, a Tina era sempre aquele lugar onde a Turma da Mônica chegaria. Um lugar onde eu, que lia as BDs quando criança, chegaria. Ela era uma projeção de assuntos que as personagens viriam a viver algum dia, ao crescerem, assim como os leitores. O Maurício de Sousa sabe se comunicar com o público brasileiro de qualquer idade e a Tina era essa projeção. Ao longo dos anos, ela foi mudando: começou como hippie e depois virou jornalista, era muito apegada ao namorado, o Rolo, e depois foi se apegando mais ao desejo de estudar. Ela foi se atualizando com o mundo. Quando percebemos que estávamos fazendo um filme sobre crescimento, fez muito sentido trazer a Tina, mesmo sem ela estar na novela gráfica original. Quando o nosso produtor de elenco trouxe a Isabelle Drummond como possibilidade para ser a Tina, na hora eu fiz uma combinação na cabeça e vi que não tinha como não ser ela.
Você vem com uma dobradinha de longas-metragens voltadas para crianças, numa carreira absolutamente plural na trajetória como montador, que arranca em “Cidade de Deus” e passa por um filme vencedor de Palma de Ouro: “A Árvore da Vida”. O que esperamos daqui para frente, além de uma possível Mônica?
Em todo o meu tempo de carreira como montador, houve uma coisa que sempre moveu as minhas escolhas, e a “Turma da Mônica” me fez adaptar essa meta, que é: não me repetir. Citando alguns filmes que fiz, como “Dark Water”, “RoboCop” e “Tropa de Elite”, um filme mal conversa o outro. Não tenho o menor interesse em fazer algo que sei como vou fazer. Não busco o resultado e sim o processo. Busco a reinvenção. Mesmo com a Mônica… um filme precisa ser diferente do outro. Um é uma aventura e o outro é uma jornada interna. Um próximo filme da Turma da Mônica vai depender do resultado da bilheteira do “Lições” neste momento ainda pandémico. Precisamos entender se, no meio do lançamento de um terceiro filme do Homem-Aranha, as pessoas ainda vão entrar no Limoeiro. Essa busca por fazer coisas diferentes passa também pelo meu trabalho como produtor. Estou interessado em produzir coisas diferentes e como diretor quero fazer algo que nunca fiz, preparando um filme extremamente poético, com outra pegada e minimalista.

