Murilo Salles navega para além do torpor melancólico em ‘Uma Baía’

(Fotos: Divulgação)

Consagrado como realizador já na sua longa-metragem de estreia, “Nunca Fomos Tão Felizes” (premiado em Locarno, em 1984), Murilo Salles fez história como diretor de fotografia no Brasil, à força de sucessos como “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1976) e de filmes de culto como “Tabu” (1982) e “Cabaret Mineiro” (1980), nos quais desafiou as convenções de enquadramento e construção de luz. Esmerilhou a forma de se enquadrar a realidade brasileira de uma maneira como raras vezes viu-se no audiovisual da América Latina. O esmero de seus anos de juventude transferiu-se para o seu trabalho como cineasta, na ficção (vide o arrebatador “Faca de Dois Gumes”) e no documentário, terreno que acaba de oxigenar com um novo filme: “Uma Baía”. A produção é um dos mais elogiados concorrentes ao troféu Redentor do 23º Festival do Rio. Nele, Murilo  usa todo o seu cabedal como artista visual para tecer oito fábulas que fazem pulsar o que dá sentido às jornadas pela sobrevivência de cada uma das personagens. São investigações sobre os conflitos entre vida e história, entre a beleza natural com o espanto das personagens em torno da Baía de Guanabara.

Sou carioca de Santa Teresa (um bairro do Centro do RJ), mas antes de ir para lá, de três a seis anos, morei em Paquetá (uma praia). E esse foi um momento muito especial da minha vida. A memória que tenho de Paquetá é uma memória de liberdade, de ludicidade, enfim, de ser livre. Éramos uns quatro ou cinco garotos… e ficava a brincar, almoçava na casa de um. Não estudavamos nessa época porque só entravamos no colégio aos sete anos. Então, era jogar bola, catar siri na praia, brincar, ficar enchendo o saco do charreteiro. Eu tenho uns espasmos visuais, mas aí, a Daisy Xavier, a minha mulher, que é uma artista plástica, começou a fazer um trabalho sobre a Baía. Aí, veio essa coisa… a vontade de documentar essa coisa tão maravilhosa e espantosa que é a Baía de Guanabara. Aí, descobri um produtor de personagens, trabalhamos juntos quase um ano… ou mais que um ano… e foi aí que nós encontramos essas oito personagens. Oito personagens que moram no entorno e se afetam pela Baía. E o filme levou cinco anos para ser feito porque era muito difícil obter uma naturalidade das coisas. Eles tratam de ritos muito primários do humano. São trabalhos ancestrais… é a estiva”, diz o realizador, hoje com 71 anos. “Estou procurando oferecer ao espectador uma capacidade de entender o torpor melancólico em que aquelas pessoas estavam nesse entreato político que levou o Bolsonaro ao Poder. Ele começa com o momento das Olimpíadas de 2016, com o Michel Temer interino na presidência, e termina com o impeachment da Dilma. O filme tenta entender o porquê desse torpor melancólico, dessa miséria, em meio à beleza de seu espaço. É isso a essência do filme. E um chamamento da imagem”.

Existe a Baía de Guanabara real e existe a Baía que o filme recortou, a partir das concepções plásticas de Murilo, um dos mais requintados fotógrafos do cinema brasileiro. “O filme é um exercício de pensamento visual. Eu professo a máxima de que a imagem pensa, imagem produz pensamento. Então, o filme narra pela imagem e pelo som. Só que o som é também construído como a imagem. Eles não estão na tradição da oralidade do documentário, que foi fundada no cinema de não ficção brasileiro, onde se fala pra caramba. Pra caramba. E nem sempre se fala coisas essenciais… Coutinho é genial, mas os filmes dele são muito falados. Até ele fala nos filmes. Ao contrário do Coutinho, eu sou da imagem. Eu me propus a fazer um documentário observacional”, diz Murilo, que ganhou o prémio de melhor roteiro no Festival do Rio de 2014 por “Os Fins e os Meios”.

Existe no seu “Uma Baía” uma atenção especial à ancestralidade indígena do Rio de Janeiro.
Para o indígena, todo o ser que tem dois olhos e história é um ser vivente, então não tem diferença entre um humano e uma pantera, entre um humano e uma cobra, entre um humano e um caranguejo, inclusive o filme professa isso entre aspas e literalmente. Quer dizer, é um filme que o tempo todo conjuga esse olhar do ser vivente”, diz Murilo, defendendo a potência na tela grande. “O meu filme professa o cinema, precisa da tela grande, precisa da sala escura, precisa do som que ocupa a sala, e ele trabalha com isso. Ele dá sentido ao espaço”.

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