Diretor de fotografia de “Central do Brasil” (Urso de Ouro de 1998), “Lavoura Arcaica” (2001) e “Santiago” (2007), para citar alguns dos marcos da Retomada, Walter Carvalho vai fazer um balanço sobre a cultura da restauração e da preservação da imagem em movimento, no legado da película, no penúltimo dia do 23º Festival do Rio. Diretor de filmes de culto como “Moacir Arte Bruta” (2005), ele vai conversar com a crítica e integrante do Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro (CPCB); com o fotógrafo e especialista em arquivo Mauro Domingues, e com o crítico Ricardo Cota às 15h (18h em Lisboa) este sábado, no Estação NET Rio. Envolvido com projetos na TV Globo, onde aportou as suas reflexões narrativas em sucessos como “Amores Roubados” (2014), Carvalho fala ao C7nema sobre o futuro da arte cinematográfica frente ao boom da streaminguesfera.

Que lugar o cinema pode exercer nestes tempos de pandemia de modo a preservar a força das narrativas de autor?
Penso que o cinema pode e deve exercer a sua força produzindo na crise pandémica e na crise política. A arma é produzir, é fazer. É produzir com os meios possíveis, que vai das câmaras digitais até os celulares. O cinema vive! Ele enfrenta a crise política e emerge com a cabeça de fora. O grito está na Mostra de São Paulo, no Aruanda da Paraíba, no Festival do Rio, está em Brasília. As pessoas estão subindo em frente às telas ainda iluminadas pelas luzes, para apresentar os seus filmes, e o grito está ali. Acho que essa retomada é uma forma de reencontrar o que nunca ficou perdido, apenas ficou um tempo parado. Sugiro a todos nós ouvirmos Ailton Krenak, Eliane Brum e nos intervalos visitar Eduardo Galeano. Essas são as minhas armas. A força que podemos exercer é continuar produzindo.
Como pensador da força estética do plano (a unidade matemática básica de um filme), de que modo você acredita que a atual cultura dos streamings – hoje em fase de boom – vai acomodar a força plástica do cinema?
É engraçado. O cinema tem raízes rasas, ele ainda é jovem. As suas raízes estão quase ainda na flor da terra, mas os seus frutos brotam poderosos. A árvore do cinema é frondosa e tem garras nos seus galhos. Os streamings sobrevivem disso, pois é a expressão imagética que grita. O cinema engoliu a imagem e se reinventou em todas as fases, desde a sua invenção. O streaming é apenais mais um pit stop, porque tudo vem do plano. Ele desarma e explode na luz. É por ele que olhamos. Explode na sala, na tela do computador ou onde for. A resistência do plano está desde o seu primeiro momento, de quando ele surgiu na locomotiva dos Lumière.
O Festival do Rio está a celebrar os 25 anos de estreia de ‘Terra Estrangeira’, que você fotografou. O que aquele filme, dirigido por Daniela Thomas e Walter Salles, ensinou-lhe sobre procedimentos de filmagem?
Eu vi o “Terra” recentemente. Aliás, vi várias vezes porque trabalhei na restauração dos negativos do filme. É curioso como, às vezes, revendo determinadas sequências, ele ainda é capaz de me absorver de forma a eu esquecer o que deveria estar fazendo ali e a entrar nele, como se fosse a primeira vez. Vi tanto tempo depois e vi que tudo continua novo. Mais que isso, “Terra Estrangeira” é um filme que fala sobre o hoje. O Collor ou o Bolsonaro são a mesma coisa, o filme é atual até nisso. O filme foi para os iglus das nuvens cibernéticas, mas ele continua no chão, da terra onde foi inventado. É um filme que mantém o seu frescor. Fiquei muito surpreendido de ver um filme 25 anos depois e entendê-lo com muito mais força do que quando ele surgiu.
O que você fotografa e dirige em 2022? É mais TV ou mais cinema?
Eu continuo na televisão em 2022. Tenho dois projetos de cinema que estão caminhando e ainda precisam de tempo. O ano de 2022 ainda será com a televisão, pois preciso ainda percorrer alguns atalhos e voos que a teledramaturgia oferece. É quase que uma missão comigo mesmo.

