Depois de estrear no último Festival de Veneza e vencer o Festival de Tóquio, “Vera Dreams of the Sea” chegou agora ao Festival Mannheim-Heidelberg, inserido na secção On the Rise.
Por trás deste projeto está a kosovar Kaltrina Krasniqi, que – baseando-se numa obra original de Doruntina Basha – conta-nos a história de uma mulher cuja vida é abalada quando o marido morre e um grupo de homens a pressiona a abdicar dos direitos sobre uma propriedade na aldeia.
Também influenciado por eventos que marcaram a vida da cineasta, como podemos ver na entrevista abaixo a Kaltrina Krasniqi, “Vera Dreams of the Sea” revela ser um retrato cru e duro de uma mulher que terá de lutar contra a tradição e leis que efetivamente a relegam para segundo plano nas decisões da sociedade.

Li na Variety que esta história é semibiográfica. O que o levou a fazer este filme e como se aproxima e distancia enquanto realizadora da realidade e da ficção?
Ao fazer o “Vera Dreams of the Sea” estava interessada em explorar a disparidade económica baseada no género, que mais do que frequentemente é mantida e justificada pela cultura e tradição. O guião do filme é uma obra original de Doruntina Basha. No entanto, a história do filme ressoa em alguns níveis com o passado da minha mãe, que também se chama Vera. A minha mãe divorciou-se do meu pai em meados dos anos 80. Ela lutou durante quatro anos, por nós, pelos direitos à propriedade e foi derrotada. Não porque não fosse legalmente elegível para a nossa parte da propriedade, mas porque o sistema judicial era patrilinear. Por tal, sim, este evento muito pessoal influenciou a história deste filme em muitos níveis.
Recentemente temos companhado várias obras do Kosovo que abordam o sistema patriarcal e como este afeta várias gerações de mulheres. Embora diferente na história e estética, “Looking for Venera” também mostrava 3 gerações de mulheres lidando com esses dilemas. E “The Hill Where Lionesses Roar” também tocou na questão patriarcal. Além disso, da Macedónia, há uns anos, chegou o “God Exists, Her Name Is Petrunija”, que, a seu modo, também aborda esse assunto. Quão importante é hoje em dia abordar esta questão, não apenas localmente, mas também de uma forma universal?
Tem havido uma vaga mundial de mulheres a contar histórias na última década, e essa mudança está a ensinar-nos a ver a vida de outro ângulo. O ângulo daqueles que historicamente foram cidadãos de segunda classe. Muitas vezes, estes não são contos heróicos, porque o arco narrativo não se encaixa em todas as experiências humanas. Não são apenas as mulheres que estão a encontrar uma voz e olhar no novo cinema e em outras artes. Vemos, finalmente, a comunidade LGBTQ +, e pessoas de cor também. Esse diálogo global através do cinema fez-nos cientes que as nossas histórias não são locais, as nossas lutas são bem parecidas em todos os cantos do mundo.
Como foi a escolha de Teuta Ajdini para o papel principal e como foi sua interação com ela para a construção de Vera?
A Teuta Ajdini Jegeni é atriz de teatro. Ela dedicou grande parte da sua carreira ao Teatro Nacional de Skopje, na Macedónia do Norte. Levei um ano para escolher alguém para o papel da Vera. A principal razão é porque as mulheres daquela geração não foram encorajadas a seguir carreiras nas artes, especialmente no campo da atuação. Encontrei a Teuta enquanto folheava as fotos de uma peça e decidi convidá-la para uma audição. Gostei da sua energia imediatamente, mas fiquei nervosa porque ela tinha muito pouca experiência em cinema. No entanto, encontrei-me com ela várias vezes e experimentámos algumas cenas, as quais deram-me garantias que podia trabalhar com ela. O segundo grande passo para a Teuta foi aprender a linguagem gestual, que ela encarna com tanta facilidade … A Teuta é profundamente dedicada ao seu ofício.

Qual foi a sua ideia em relação ao mar no título e também em algumas sequências repletas de simbolismo?
O Kosovo é um país sem litoral, a nossa ideia de mar é romântica … A noção de que representa o desconhecido. Na abertura do filme, Vera apresenta o mar como um lugar de paz. No entanto, após o suicídio do seu marido, o mar torna-se o seu pesadelo.
O mar é um elemento cinematográfico clássico. No caso de Vera ele desempenhou um papel importante para retratar as inseguranças e medos da personagem.
Grande parte do filme mostra cores particularmente esbatidas, como se estivesse tentando mostrar vidas constantemente bloqueadas à procura de luz. Como foi o seu trabalho com a diretora de fotografia para isso?
O filme desenrola-se em Pristina, a capital do Kosovo, e Pristina é uma cidade cinzenta em permanente reconstrução. Sevdije Kastrati foi a diretora de fotografia do filme, trabalhámos em conjunto para criar essa atmosfera, que era verdadeira e falava com a personagem, mas também com o lugar, o ambiente que a rodeava. Vera está em quase todas as cenas, vemos o mundo através dela e tanto quanto ela. Isso muitas vezes não é o suficiente, o que ajuda a criar uma atmosfera particular para o filme.
Depois de Veneza, o filme venceu o Festival de Cinema de Tóquio e agora chega à Alemanha. Como tem visto a jornada do filme pelo mundo?
O filme está a ter um percurso nos festivais fantástico. E o mundo está a regressar aos cinemas aos poucos, o que me dá muito prazer pois consigo conhecer em pessoas as audiências. O que esta jornada me ensinou é que Vera é universal e as pessoas em todo o mundo ressoam nela.

