Fabiano Canosa, um pilar da circulação de filmes brasileiros pelas telas do mundo

(Fotos: Divulgação)

Se você estivesse num jantar na casa carioca de Fabiano Canosa, na Urca, à beira-mar, e o ouvisse atender o telefone, dizendo “Ciao, Bernardo!”, podia ter a certeza de que, no outro lado da linha estava Bertolucci (1941-2018), de quem era fã, amigo pessoal, escudeiro (na promoção dos seus filmes) e um confidente na troca de receitas culinárias saborosas. Carinho igual ele tinha por Jonathan Demme (1944-2017). Forest Whitaker, Jim Jarmusch e (sobretudo) Paul Schrader engordam a lista das amizades cinéfilas que o pesquisador e radialista brasileiro colecionou a partir dos anos 1970, quando assumiu o posto de programador de longas-metragens do Public Theatre, em Nova Iorque. A partir daquela tela, ele exportou o que havia de mais autoral na produção audiovisual da América Latina para os americanos, realizando ainda retrospectivas de génios europeus para os nova-iorquinos.

Fã de “A Desaparecida” (“The Searchers”, 1956), ele ainda não colocou as suas recordações numa folha de papel, rascunhando o livro de memórias que os amigos lhe cobram. Mas os cineastas Brunno Rodrigues e Cavi Borges resgataram o seu passado por ele. Os dois condensaram as suas lembranças no filme “Viva Canosa!”, documentário que integra a programação do RECINE – Festival Internacional de Cinema de Arquivo, realizado no Estação NET Rio, em Botafogo. Fotos dele servem de base à narrativa. Chef de cozinha, sábio em geopolítica, Fabiano conviveu com Jack Lemmon (1925-2001), tomou bebidas com mestres nas festas de Cannes e acompanhou todo o sucesso internacional da carreira de Sonia Braga. O filme de Rodrigues e Cavi é uma carta afetuosa de respeito ao périplo de Canosa para levar a brasilidade planeta afora. Ele é um dos principais pensadores da estética cinematográfica moderna, responsável pela presença de filmes de culto de Glauber Rocha (1939-1981) no circuito nova-iorquino. 

Na entrevista a seguir, o C7nema conversa com Canosa sobre como foi levar a América do Sul para ps cinemas de Nova Iorque.

Qual foi a maior dificuldade para abrir caminho para o Brasil nos festivais do exterior, nos anos 1970?

Os festivais de cinema começaram a ser popularizados no pós-guerra, quando a noção de “filme de arte” começou a se impor. Roberto Rossellini e o neorrealismo imprimiram a sua marca e o nosso cinema, o brasileiro, deu uma contribuição exótica à modernidade com o Nordeste westernizado de “O Cangaceiro” e o romantismo de Zequinha de Abreu com “Tico Tico no Fuba”. Aí chegou Nelson Pereira dos Santos com o seu “Rio 40 Graus”, em Karlovy Vary, e o nosso neorrealismo se desdobrou nas exibições simultâneas em Cannes de “Deus e o Diabo nas Terra do Sol” e “Vidas Secas”, em 1964. Foi aí que a noção de um cinema revolucionário e independente ficou registado, justamente em 1964, quando o regime democrático do Brasil foi cooptado pelos militares. Eles viam nossos filmes como ameaça às instituições, haja visto a proibição temporária de “Terra em Transe”, lançado por Glauber Rocha em Cannes, em 1967. Sem divulgação, sem agentes internacionais, e com nosso deslumbre habitual com as coisas estrangeiras, a única política “festivaleira” que teve um esboço de organização foi o gesto do diretor Roberto Farias via Embrafilme (empresa de fomento à produção e circulação), garantindo uma verba oficial para apoiar os filmes que competiam nos festivais internacionais.

Qual foi a “missão diplomática” mais árdua na sua luta para promover a América Latina nas telas dos EUA?

A minha entrada no cenário de exibição e distribuição em Nova Iorque foi facilitado pelo interesse de uma distribuidora local, a New Yorker Films, presidida por Dan Talbot. Ele havia adquirido uma penca de filmes do Cinema Novo que foram exibidos em 1967 no MoMa. Houve ainda um outro facto importante, nessa época: a presença de Glauber Rocha naquela cidade. Glauber me chamou para morar com ele e (o percussionista) Naná Vaconcellos num loft espetacular, numa rua transversal do Bowery.  Talbot precisava de um publicitário expert e eu estava na cidade em boa hora.  Depois de “O Cangaceiro” (premiado em Cannes, em 1953, com a láurea de melhor filme de aventura), “O Pagador de Promessas” (a Palma de Ouro em 1962) e “Os Cafajestes” (um blockbuster no Brasil, lançado como softcore), mais o lançamento no Paris Theater de “Vidas Secas”, que foi uma escolha de sala insólita, não se falava mais de cinema brasileiro. Naquele momento, a ideia de um cinema revolucionário tropical não caia bem num mundo do entertainment contemporâneo, regado a filmes de barato de rock, como foi caso de “Woodstock”, e regado de épicos de género, como “Patton” ou de gozação ao militarismo, como “M.A.S.H.”. Colocar filme brasileiro naquela praça era uma proposta radical. As únicas cinematografias que encontravam espaço eram a francesa e a italiana… e olhe lá. Até o fenómeno “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, na segunda metade dos anos 1970, os filmes brasileiros tinham de se contentar em serem exibidos em formato “festival”, entrando em circuito como um filme por dia, contando com resenhas em universidades, particularmente a Berkeley, na Califórnia. Então, o recurso era tirar copias 16mm dos filmes e os fazer circular em algumas universidades, inclusive a de Buffalo, onde dei cursos de cinema e levei os nossos filmes da primeira fase do Cinema Novo

Que medo a cultura do streaming hoje te impõe? Como usá-la em prol do cinema?

Faz algum tempo, Paul Schrader declarava “somos analógicos, não somos digitais”. Tal posição mudou radicalmente hoje em dia. Para os nossos filmes, o streaming pode ser a salvação da lavoura.  Só não posso dizer ainda se é uma questão de usar a palavra “feliz” ou a palavra “infelizmente”. As plataformas se mostraram como uma saída não apenas por causa da pandemia. Acelerada por ela, a exibição dos chamados “filmes de arte” está encontrando cada dia mais plataformas no streaming. O distanciamento forcado está a fazer dos cinemas uma espécie de caviar da cadeia de entretenimento, e o “se a gente tem tais canais para assistir ‘Roma’ ou ‘The Irishman’, para que sair de casa e se expor?” começa a se tornar um mantra. Nada como assistir a um filme numa sala cheia de estranhos, compartilhando as emoções de ver um James Bond coletivamente. Mas não nos esqueçamos de que se trata de um EVENTO. Para os nossos filmes, tanto os regulares quanto os ‘filmes-cabeça’, o streaming pode ser um elemento persuasivo para se encontrar uma audiência e, entre os benefícios dessa mudança no processo de recepção, os filmes podem ser legendados (ou dublados/dobrados) em várias línguas,

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