Edwin: o realizador que quase desistiu do cinema, mas ganhou o Festival de Locarno

(Fotos: Divulgação)

Ninguém bate os títulos dos filmes do indonésio que responde apenas como Edwin, e depois de “Blind Pig Who Wants To Fly”, “Postcards from the Zoo” e “Someone’s Wife in the Boat of Someone’s Husband”, o realizador apresentou – e venceu o Festival de Locarno – com “Vengeance Is Mine, All Others Pay Cash”, um projeto fortemente influenciado pelo cinema de ação popular nas décadas de 1980 e 1990 que mistura comédia negra, drama e romance.

Foi na cidade suíça que nos sentamos à mesa com o realizador, que nos falou um pouco deste filme fortemente estilizado e que levou os norte-americanos a apelidá-lo de “Quentin Tarantino indonésio”.

Apesar de ser baseado numa obra literária, parabéns pelo título. Aliás, todos os títulos dos seus filmes  são uma forma de arte em si (risos). O que o levou a adaptar esta história ao cinema?

Bem, o título original do livro é diferente daquele do filme. Literalmente, o título é qualquer coisa como  “Like revenge, longing must be paid completely” (Como a vingança, o desejo deve ser pago na totalidade”. É um título engraçado e poético, mas eles traduziram o livro original como “Vengeance Is Mine, All Others Pay Cash”, que também é muito bom. E faz referência a um livro japonês do Ryūzō Saki ( Vengeance Is Mine), que o Shoei Imamura adaptou  ao cinema em 1979. Gosto muito desse filme. 

Li o livro muito rapidamente e senti que era algo entre as memórias e a fantasia, mas muito terreno no que diz respeito à realidade que retrata.

A ação do filme desenrola-se num período de ditadura, de Suharto. Como foi construir um filme que regressasse ao passado mas que não invocasse qualquer tipo de nostalgia com esses tempos?

Desde o início sabia que não queria ficar preso nessa nostalgia. O meu pensamento principal era como mostrar esta era e este género de filmes para as audiências atuais na Indonésia, mas igualmente com uma universalidade nele.

O tema da vingança ajuda, já que é totalmente universal… E temos um herói, um lutador, que é impotente…

Vengeance Is Mine, All Others Pay Cash

Sem dúvida, mas como mostrar essa vingança, esse sentimento bem humano, foi o meu principal desafio. Quanto à personagem, ela estava no livro e era muito interessante. No fundo, temos este mundo muito macho e duro, com lutadores e assassinos. Qual o papel nesse mundo de uma personagem que não se enquadra neles? Qual o papel de alguém mais sentimental? E impotente? A impotência é um tabu em todo o mundo. Ninguém quer sofrer de impotência.

Acima de tudo queria desafiar esta ideia particular:  e se o nosso homem, o protagonista e herói, fosse impotente?

Se pensarmos, essa característica nunca faz parte do universo dos ditos “machos”. Ao colocar as duas coisas lado a lado, a figura do macho e a impotência, criei automaticamente um conflito.

Sente que a sociedade indonésia é muito machista?

Sim e esse machismo está no nosso sangue, intimamente e historicamente ligado à sociedade patriarcal. A forma como iria criticar no filme esse facto era para mim de extrema importância.

Além do drama e romance, a ação é marcante no seu filme, em particular as sequências de luta onde temos acesso ao Silat (arte marcial). Como foi coreografar essas lutas?

Tínhamos um coreógrafo. Se reparar, o ator que vemos num momento na prisão a confrontar o Ajo participou no “The Raid”. Ele é um mestre e professor dessa arte marcial. O coreógrafo das lutas é seu amigo. 

Temos de ver que depois do “The Raid” surgiram imensos talentos e filmes do género, a maioria só com lutas. Pessoalmente acho chato quando eles se resumem a pancadaria, como também acontecia com muitos filmes da era que tentamos nos inspirar (80s e 90s). Para mim, isso não era suficiente. Num filme tem de existir comédia, romance, drama, etc. 

Um bom exemplo pratico do que queria é aquela sequência inicial de luta no meu filme. Queria tornar essa luta em algo romântico, como se fosse também uma dança e não apenas uma luta.

E como foi desenvolver aquele triângulo amoroso que vemos em cena?

Também vem do livro, mas este é muito denso e tive de comprimir, reduzir o que lá surgia. Decidimos focar mais numa história de amor irónica. Claro que todos gostam de um bom vilão no meio dela. Aprimorei a personagem a pensar nisso.

Vengeance Is Mine, All Others Pay Cash

A textura e grão do filme são bastante peculiares e remetem-nos a outra era. Como foi o seu trabalho de construção visual juntamente com a diretora de fotografia?

Desde o início pedi ao meu coprodutor (e amigo) que queria trabalhar com alguém de fora da Indonésia. Queria filmar com Kodak 16mm, desafiando-nos a nós mesmos. Esse facto atraiu imediatamente muita gente. Tivemos muita sorte em trabalhar com a Akiko Ashizawa, pois adoro o seu trabalho. 

Ela é uma lenda e trabalhou com nomes como o Kiyoshi Kurosawa. Já fez dramas, horror. Ela é muito fluida nos géneros cinematográficos em que trabalha. Lida bem com o storytelling e traduz visualmente tudo isso de forma muito artística. Falámos muito da cultura popular e ela deu-nos muitas dicas sobre cor, composição, etc.

E quanto às escolhas musicais, aquele rock…

Tal como nas referências aos filmes, esse período era marcado por muitos temas que chamamos de slow rock, coisas locais tipo AC DC mas não tão boas, misturadas com uma toada melancólica asiática. São muito populares na região.

Os norte-americanos teimam em dar aos cineastas alguns apelidos curiosos. Por exemplo, o que pensa deles o chamarem de “Quentin Tarantino da Indonésia”?

Para ser sincero, não ligo a isso. É apenas uma maneira de nos apresentarem num território que não é o nosso.

O quão importante é para si o filme estar aqui presente em Locarno?

Significa muito depois de estar praticamente dois anos fechado em casa devido à pandemia. Quase desisti do cinema porque a pandemia fechou tudo. Ter o filme aqui em Locarno, num festival que celebra o cinema, dá energia, força e finalmente uma audiência. E dá esperança. Na Indonésia tenho tido uma resposta do público muito interessante, pois querem vê-lo o quanto antes.

Como vê o cinema e a luta com as plataformas de streaming, especialmente em tempos pandémicos? E o que o Edwin prepara para filmar a seguir?

A questão das plataformas tem o seu lado bom e mau, como tudo. Para mim, pessoalmente, acho que na Indonésia temos umas 10 plataformas dessas e são todas muito agressivas a acumular ‘conteúdos’. Continuo a poder fazer filmes, mas noutros casos, dá a sensação que só fazemos filmes de género. Creio que temos de dar o nosso melhor porque as audiências indonésias, especialmente os jovens, gostam muito de ver filmes em grupo.

Quanto a um novo filme, o problema é que com os cinemas fechados no país resta-me o digital. Teria de entrar nesse mundo e fazer ‘conteúdos’. Até queria fazer algo para essas plataformas, mas não lixo.

Últimas