São sobejamente conhecidos e apreciados, em todo o seu esplendor, como uma arte por si só, os títulos que o cineasta indonésio conhecido como Edwin arranja para os seus filmes.

E depois de “Blind Pig Who Wants To Fly”, “Postcards from the Zoo” e “Someone’s Wife in the Boat of Someone’s Husband” (tcharam!), o realizador que os americanos teimam em definir como “o Quentin Tarantino da Indonésia” trouxe até Locarno “Vengeance Is Mine, All Others Pay Cash”, filme de ação brutal inspirado no cinema de género da década de 80 e 90 que encontrou sucesso globalmente, mas particularmente na Indonésia.

Baseado numa obra literária de Eka Kurniawan, esta delícia estilizada com as marcas cinematográficas e musicais dos anos 80, num país em plena ditadura de Suharto, longe de qualquer forma de nostalgia conta a história do romance entre Ajo Kawir (Marthino Lio), um lutador exímio mas impotente, e Iteung (Ladya Cheryl, absolutamente memorável), uma mulher também ela extraordinária nas artes de combate. Longe de uma condição estritamente fisiológica, a impotência sexual do nosso protagonista deriva de um trauma, agora recuperado pela sua parceira que parte numa jornada de vingança sem tréguas.

Sensual, erótico e magnificamente apresentado entre sequências de luta, de drama e também romance, como se uma dança permanente invadisse os ecrãs, seja através de sequências de ação ou atos sexuais, “Vengeance Is Mine, All Others Pay Cash” esconde – antes de explodir na nossa cara – uma violenta crítica social, onde masculinidade tóxica mostra-se como um encapotamento e resposta forçada a fragilidades pessoais, muitas delas derivadas de tumores sociais e catalogações.

Não é assim à toa que o irascível Ajo é impotente, já que no passado foi forçado a assistir a uma violação coletiva, situação que o afetou permanentemente e que transforma este filme também num filme socialmente relevante na esfera da luta feminista, mas igualmente com incidência no universo masculino, que na maioria das vezes tem de lutar contra as expectativas estereotipadas da heteronormatividade e pujança sexual como uma espécie de monitor da masculinidade.

No final temos assim um bom e divertido filme socialmente relevante e reflexivo a sair diretamente da cartola de Edwin, alguém a que se devia dar mais atenção no nosso circuito de festivais, mas também no universo comercial dos lançamentos em sala.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
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