Jurado do troféu L’Oeil d’Or de 2016, quando o prémio contemplou “Cinema Novo”, de Eryk Rocha, Amir Labaki, curador do festival É Tudo Verdade, teve duas tarefas a mais em Cannes, este ano, que não apenas estudar as atuais tendências da não ficção nas telas: ele deu uma entrevista sobre “Orfeu Negro” (1959), de Marcel Camus, para o site do evento, e comandou, com a jornalista Daniela Chiaretti, um painel do Marché du Film chamado “Documenting Amazon: A Dialogue With Jorge Bodanzky e João Moreira Salles”.
A experiência é parte de uma longeva relação de Amir com a Croisette, que reflete sua relevância mundial como pensador da arte de documentar. Arte esta que ele aborda também na TV e no streaming, na série “Cineastas do Real”, do Canal Brasil, que inaugura a sua temporada de 2021 nesta quarta-feira. O horário: 19h30, 23h30 de Portugal, onde é possível aceder a emissora na internet, via Canal Brasil Play.
O primeiro convidado é Walter Salles, que encantou plateias com “Socorro Nobre” (1995) antes de conquistar o Urso de Ouro da Berlinale com “Central do Brasil” (1998). Na entrevista a seguir, ele diz ao C7nema como vão as investigações documentais no seu país, abalado pela destruição de parte de sua memória audiovisual após o incêndio na Cinemateca Brasileira, no dia 29 de julho.
Desde “27 Scenes About Jorgen Leth”, filme que dirigiu, em 2008, você também se mostra como um documentarista, além de crítico e curador. De que maneira a série “Cineastas do Real” amplia essa dimensão de documentarista? Até que ponto a dinâmica da TV te permite, num programa assim, fazer uma investigação mais livre no terreno da forma?
Um programa de entrevistas não é um documentário. Creio ter aprendido muito sobre a maleabilidade da forma do cinema não-ficcional com esses encontros, mas não que tenha aplicado isso nesta produção específica.
Que histórias mais te impactaram nas temporadas passadas?
Não foi uma história ou um programa específico, mas a percepção de como o Eduardo Coutinho e “Cabra Marcado pra Morrer” são marcos essenciais, muitas vezes inclusive quanto às trajetórias pessoais.
O que a experiência recente do É Tudo Verdade, em suas duas últimas edições, feitas online, em reação à pandemia, revelou sobre os hábitos de recepção dos cinéfilos brasileiros neste momento? E de que maneira a pandemia já virou um vetor de influência na maneira de se produzir filmes?
As duas edições sob a pandemia apenas reafirmaram a minha crença original quanto ao enorme interesse do público por documentários. A dificuldade maior sempre foi o acesso a eles. Alcançamos 116 mil pessoas em 2020 e o novo recorde de 211 mil neste ano. É natural que as produções venham se readequando a cada nova etapa pandémica, sobretudo quanto aos cuidados na gravação. Não acredito que a pandemia da Covid-19 causará alterações formais duradouras no documentário, da mesma forma que nenhuma grande mudança veio em consequência da epidemia da gripe espanhola no século passado.
Queria te pedir uma frase ou duas para falar da importância estética dos primeiros convidados do programa nesta temporada, começando pelo Walter Salles. E seguindo por Antonio Carlos da Fontoura, Joel Zito Araújo e Sandra Kogut. E mais: o que esse coletivo de cineastas revela acerca das narrativas de não ficção do país?
Walter Salles é um fabulador do real. Antonio Carlos da Fountora é um irrequieto. Joel Zito Araújo é um grande divisor de águas: há um cinema negro brasileiro antes e um depois dele. Sandra Kogut é uma desbravadora do audiovisual.

Ao anunciar a selecção do Festival de Veneza, o seu curador, Alberto Barbera, falou que os filmes, de modo geral, aumentaram de duração, talvez sob o impacto das narrativas serializadas. Como você vê esse impacto no documentário brasileiro hoje?
Ainda não se senti este impacto na produção dos longas-metragens documentais brasileiros, com uma ou outra exceção. O que tenho visto são narrativas jornalísticas serializadas se apresentando indevidamente como séries documentais.
O que uma série sobre documentaristas representa num momento histórico em que o Brasil – quiçá o planeta – se prende tanto a fake news? De que maneira os documentários viraram uma alternativa de informação, para além de seu compromisso com a poesia?
Espero que “Cineastas do Real” cumpra o papel de registar e destacar as trajetórias pessoais e as sensibilidades estéticas de realizadores brasileiros que imprimiram suas marcas na história do documentário no país. Cumpre ao jornalismo o combate às “fake news”. As batalhas essenciais do documentário são outras.
Como você avalia o documentário português hoje?
Muito me honra ter um realizador em parte brasileiro, em parte português, da dimensão do Sérgio Tréfaut como um dos entrevistados da terceira temporada do “Cineastas do Real”. Parece-me extraordinário acompanhar a constante reinvenção dos dispositivos de filmagem feita por ele, a partir do universo enfocado, seja em documentário como em ficção, perseguindo sempre as mesmas questões: memória, raízes, violência, morte, vida, canções. É imensa a contribuição de Sérgio, como curador e produtor cultural, para o revigorar da produção documental portuguesa neste século 21. Mas, como cineasta, a obra dele transcende classificações e se impõe entre as mais belas projetadas recentemente a partir das telas lusitanas.

