Conhecida no cinema português pela sua participação em “O Estranho Caso de Angélica” (2010), de Manoel de Oliveira, Ana Maria Magalhães transformou-se num dos rostos mais emblemáticos do cinema brasileiro no mundo desde que apareceu como Seboipepe em “Como Era Gostoso o Meu Francês”, de Nelson Pereira dos Santos, há 50 anos.
Primeiro, o filme arrebatou plateias na Quinzena de Cannes e, depois, na luta pelo Urso de Ouro de Berlim. Nove anos depois, ela e Tarcísio Meira apareciam lado a lado em imagens emblemáticas de “A Idade da Terra”, que concorreu ao Leão de Ouro de Veneza, em 1980. Um frame dela e de Tarcísio, juntos, virou a capa de um livro da “Cahiers du Cinéma”, editado no início dos anos 2000, com textos sobre o Brasil.
Paralelamente a essa carreira de cinco décadas e meia como atriz, Ana Maria afirmou-se também como cineasta, em especial no terreno documentário, dirigindo filmes sobre a força feminina e sobre expressões de brasilidade. O seu mais recente trabalho como realizadora vai estrear no dia 5 de agosto: “Mangueira em 2 Tempos”. Eleito o Melhor Documentário no INYFF – International New York Film Festival, a longa-metragem obteve Menção Honrosa no LABRFF – Los Angeles Brazilian Film Festival e Honra ao Mérito no Docs Without Borders Film Festival. A sua narrativa reaproxima amigos de infância que formaram a escola de samba do morro nos anos 1990.
Em 1992, Ana Maria realizou o vídeo-documentário “Mangueira do Amanhã”, que mostra a influência do samba na vida das crianças, a formação de uma escola mirim e o desfile de carnaval desse ano. O vídeo documentava a tradição cultural transmitida pelos mais velhos para incentivar as crianças a desenvolverem o seu talento. A ideia de volta a filmar aquele universo surgiu nos encontros ocasionais da cineasta com Wesley, um mestre de bateria da escola, que lhe dava notícias dos seus amigos mais próximos. Eram crianças que ela conhecera durante as filmagens do vídeo e com quem estabelecera laços de confiança e amizade. Desde então, Ana Maria interessou-se em acompanhar os seus percursos, mas a ideia de continuar a narrativa partiu de Wesley. Naquele período, ela achou que ainda era cedo para que as suas histórias de vida pudessem ser vistas em perspectiva. O projeto nasceu vinte anos depois.
Na entrevista a seguir, Ana Maria abre a sua apoteose ao C7nema.
O seu belo filme foge das arestas do cinema etnográfico para fazer celebração, em vez de antropologia. Mas é um filme sobre um território. Um território físico e afetivo. De que maneira esse teu território, a tua Mangueira, sintetiza o Brasil, em suas contradições e afetos?
Passei ao largo da tentação do cinema etnográfico. A minha relação com o grupo é afetiva. Tem um lado lúdico, de alegria, que permanece desde que filmei aquelas crianças há 30 anos. Naquela época, olhei as pessoas do morro de perto. E acima de tudo, a Mangueira é a minha escola de coração. Os seus compositores estão entre os melhores. Quer dizer, o motivo do filme é a celebração da amizade, do samba e, agora, do funk.
Queria entender como funciona o seu processo de edição. Quantas horas de material bruto e como editá-las?
A minha formação de diretora começou pela edição. Fiz estágio com o Nelson Pereira dos Santos. Fui assistente de Mario Carneiro e depois de Gustavo Dahl. Acho que desse caldeirão criei uma forma de montar fora dos cânones, como diz um amigo cineasta, mas que tem um sentido. Já filmava muito em película, e, agora, filmo mais ainda. Nem sei avaliar quantas horas de material bruto tinha. Muita gente acha um erro. Mas estou acostumada a organizar na minha cabeça os diversos elementos. Ao mesmo tempo, sigo um roteiro de três ou quatro páginas, e disponho de todas as entrevistas transcritas. Daí começo a montar o quebra-cabeças. No caso de “Mangueira em 2 tempos” foi punk porque são vários personagens, em tempos diferentes, temas diversos com direito a subtemas. O processo de edição levou quase quatro meses. E, desta vez, tive a chance de atribuir à música um papel acentuado na construção narrativa, como elemento determinante para as passagens de tempo e o ritmo. Lembro-me sempre de Buñuel que dizia que a montagem é hipnose.
O que a Mangueira do Amanhã trouxe de mais essencial para a dimensão inclusiva do Carnaval? Como se deu a sua entrada no universo mangueirense?
A Mangueira do Amanhã formou talentosos músicos profissionais, iniciou toda uma geração no mundo do samba e, como o filme demonstra, preservou a tradição de uma cultura de transmissão oral. Naquele tempo, perguntei ao Carlos Cachaça de onde vinha a força da bateria. Ele respondeu que, desde pequenas, as crianças da Mangueira batiam em latas vazias. Havia um apelo musical em cada um deles. Elaborei um projeto sobre a Mangueira e busquei apoio fora do Brasil. A Anna Glogowski acolheu um dos segmentos que era a Mangueira do Amanhã para um programa do Canal Plus.Passei três meses indo à Mangueira duas vezes por semana, para preparar e filmar todo o processo de saída da escola mirim. Eu já tinha uma amiga lá que é a comadre Jurema e que me ajudou na produção local.Levei as crianças para filmar na casa da Alcione. Elas se esbaldaram na piscina. Era uma farra. Depois que terminamos de filmar continuei a acompanhar de longe as pessoas da turma.Na época da montagem, fui à casa do Tom Jobim na tarde em que ele foi convidado para ser o tema do enredo da escola. Naquele ano, fiz parte da comissão de carnaval e fui eu que li para eles o enredo do Oswaldinho. Muitas histórias. O que fica é o afeto pelas pessoas, a saudade de outras.
No filme, o músico Ivo Meirelles faz uma exposição exemplar sobre a sedução do tráfico. O que a imersão no universo da Mangueira te mostrou sobre o abismo de Cidade Partida do Rio de Janeiro?
O convívio com pessoas de qualquer comunidade do Rio demonstra muito claramente que é preciso libertar e descriminalizar o uso de drogas. E acabar com esse flagelo. Como disse um delegado certa vez, desde que o mundo é mundo, crime é matar e roubar. Enquanto portar drogas for considerado crime, a violência vai crescer. Já não podemos ter diariamente o espetáculo macabro de crianças morrendo por balas ‘perdidas’, e adolescentes entrando para o tráfico para morrer logo também. Em nome de quê e de quem? Legalize!
O seu cinema, em ficções e documentários é pautado SEMPRE por um requintado uso das paletas de cor do real. Como é a lógica do colorido num .doc sobre a Mangueira?
Gosto de pintura, enquadramento e cor. No cinema o pincel é a luz, e procuro trabalhar com bons profissionais. Em “Mangueira em 2 tempos”, o diretor de fotografia é o Jacques Cheuiche. Já tinha trabalhado com ele na série “O Brasil de Darcy Ribeiro”. Então é tranquilo porque já existe um entendimento. A lógica da cor na Mangueira é deixar correr solta. O Jacques fecha na marcação de luz. Por incrível que pareça, realça o colorido.
Se eu não estiver errado, você está completando 55 anos de cinema. De que maneira avalia a trajetória que construiu no audiovisual do início até aqui?
Sim, em novembro completo 56 anos de cinema. Inacreditável. Comecei aos 15. Nesse percurso, vivi várias fases, minhas e do cinema. Considero a minha trajetória valiosa. Fiz muitas coisas, em diversos papéis e funções, desde a busca por uma interpretação brasileira até a audácia de encarar o desafio de ser realizadora em nosso país. No fundo, a gente sempre diz a mesma coisa, só muda o jeito de dizer.

