Laureado no Festival de Amiens, em França, “Boleiros: Era Uma Vez o Futebol…” (1998), com um prémio especial do júri por sua fina direção, Ugo Giorgetti deixou mundo afora uma marca autoral como realizador que o cinema brasileiro aprendeu a admirar: centrado na maior metrópole do Brasil, São Paulo, a sua obra é uma cartografia de lealdades.
A sua obra-prima, “O Príncipe” (2002), famosa por ter um dos melhores roteiros já escritos em terras brasileiras, é a radiografia mais precisa do desencanto intelectual do seu povo, construído com apreço especial para amarguras. De 29 de julho a 5 de agosto, as suas histórias sobre gente como a gente, assombradas por conflitos sociais e económicos, vai entrar em retrospectiva no Espaço Itaú de Cinema Frei Caneca, que abriu suas portas há 20 anos.
A mostra de Giorgetti é parte da comemoração das duas décadas que a sala exibe filmes de autor, incluindo pré-estreias dos seus mais recentes trabalhos: a longa de ficção “Dora e Gabriel” e o documentário “Paul Singer – Uma Utopia Militante” (aplaudido no festival É Tudo Verdade), que serão lançados nos cinemas em agosto e setembro, respetivamente.
A partir do dia 06 de agosto, os filmes estarão disponíveis na plataforma Itaú Cultural Play, sendo que quatro longas-metragens – “Boleiros”, “Boleiros 2 – Vencedores e Vencidos”, “Sábado” e “Festa” – poderão ser acedidos somente por 48 horas cada um. Na entrevista a seguir, Ugo desenha para o C7nema um mapa afetivo da nação que tenta retratar.
O seu cinema parece sempre passear pela dramaturgia da lealdade, na relação entre amigos, sob vetores económicos ou políticos. Qual seria o conceito de amizade que seu cinema persegue? O quanto esses retratos refletem seus próprios valores de afeto?
Amizade é, sobretudo, extrema curiosidade diante de outro. Amizade profunda, como há em alguns dos meus filmes é a culminância da solidariedade entre seres humanos. Solidariedade mútua, influência recíproca, principalmente nos anos de formação. Certamente algo de mim está nos meus filmes. Não saberia dizer quanto.
Como você avalia o lugar de São Paulo como personagem na sua obra?
São Paulo não é personagem. É, antes, a tapeçaria social por trás dos personagens. Onde os personagens se movem e convivem. Uso a cidade como uma espécie de mapa.
De que maneira a sua experiência na Publicidade foi útil e também danosa em sua incursão pelas telas?
A Publicidade foi extremamente útil na minha formação como cineasta. Ela está presente em todos os meus filmes, inclusive no mais recente, “Dora e Gabriel”. Presente não como ideia, mas com os amigos que fiz naquela época e que fazem parte até hoje das minhas equipes. Não consigo ver dano algum causado pela Publicidade. Publicidade é apenas um dos cinemas possíveis, com finalidades bem definidas e claras. Pode ser danosa para quem não consegue ver isso.
Que espaço sobrou para o cinema paulista na atual realidade cultural do Brasil e de que maneira São Paulo preservou uma excelência no retrato das relações sociais de sua geografia e de outros mundos?
Nunca me preocupei com o espaço reservado ao cinema paulista no panorama cultural do país. É uma questão que não me afeta. No entanto, ainda vejo em São Paulo a confluência de vários Brasis que se amontoam e se confundem. De tal maneira que falar de São Paulo é falar do Brasil. De fato, não há qualquer necessidade de sair de São Paulo à procura do Brasil. Ele virá inevitavelmente ao seu encontro. É só esperar e perceber quando chega.
Como as narrativas documentais entram na sua obra e o que o filme sobre Paul Singer te trouxe de novidade, não apenas na sua relação com o Brasil, mas em sua relação com o próprio cinema?
Não faço muita diferença entre filmar documentários e filmar ficção. A diferença significativa para mim é entre filmar e não filmar. Se estou filmando, estou bem. Seja documentário ou ficção. Talvez porque esteja convencido de que tudo é ficção, inclusive os assim chamados documentários. O Singer foi apenas um exercício sobre uma pessoa admirável. Um pensador único, raro, invulgar. É um filme que pretende mostrar a beleza de um homem pensando.

