O tempo de Frederico Machado na órbita da inquietude

(Fotos: Divulgação)

Debruçado hoje sobre uma experiência narrativa “pop”, com cheiro a “sessão da tarde”, mas de altíssimo teor etnopoético, sobre Jesus Norberto Gomes, o inventor do refrigerante cor de rosa chamado Guaraná Jesus, o cineasta Frederico Machado é comummente designado por um epíteto nobre: “o David Lynch de São Luís” (cidade do litoral norte do Brasil, capital do estado do Maranhão). Ele acaba de encerrar uma série de 13 episódios sobre a cultura popular do seu estado, chamada “Punga”, e já o tal epíteto que cai sobre ele numa conotação elogiosa há de correr pela pena dos críticos.

É uma designação que, vez ou outra, rola pela imprensa cinematográfica para qualificar filmes como “O Exercício do Caos” (2013) e “Litania da Velha” (1997). Tal analogia vem pela dimensão surrealista da obra de um realizador que retrata o Nordeste brasileiro pelas lentes do improvável – tal qual o mundinho “lynchiano” de “Veludo Azul” (1986) -, numa herança direta da poética do seu pai, o bardo Nauro Machado (1935-2015).

Quando um leigo na arte do verso pergunta por que Nauro era conhecido como um dos maiores poetas do Brasil, a resposta vem em forma de estrofe: “Quem me restituirá ao ímpar que sou,/senão a morte que descascará minha pele/ abandonando os braços inutilmente/ à espera do sol?”. Esse mesmo sol e essa mesma morte espreitam as personagens de Frederico, como a camionista Rosa, protagonista do seu filme sobre Jesus Norberto Gomes, produzido por Fernanda Kalume e Roberta Gomes. Espreitam também o seu dionisíaco “As Órbitas da Água” (2020). Responsável por um polo de exibição de longas-metragens autorais na capital do seu estado natal, o Cine Lume (fechado por motivos pandémicos, mas em via de iminente reabertura), ele ainda editou, em formato DVD, filmes de culto internacionais como “Pai e Filha” (1949), de Yasujirô Ozu (1903–1963); “Wanda” (1970), de Barbara Loden (1932–1980); “Caninos” (1979), de Bigas Luna (1946-2013); ou “Vá e Veja” (1985), de Elem Klimov (1933–2003). Paralelamente a esse trabalho de preservação da memória cinéfila, ele ainda faz séries e delineia novos filmes de ficção.

Acabei agora o ‘Punga’, uma série extremamente surrealista, impregnada de fabulação, com relação à dança que dá nome ao projeto. Essa fabulação revela a pluralidade de personagens do Maranhão, a partir de arquétipos dessa dança popular. Estou começando o filme sobre Jesus Norberto Gomes e tenho ainda ‘Percurso de Sombras’, um longa que mistura musical, com filme de guerra e ficção científica. Vai se passar todo numa trincheira e mostra muito o que está acontecendo no Brasil de hoje. Tem ainda o ‘Noite Ambulatória”, que será a minha primeira coprodução internacional, a ser filmada no Chile. É um filme duplo do ‘Lamparina da Aurora’. A gente fez uma trilogia que é ‘O Exercício do Caos’, ‘O Signo das Tetas’ e ‘As Órbitas da Água’. São filmes baseados na poesia do meu pai, Nauro Machado. É uma reflexão sobre a existência de Deus, família, sexo, o corpo muito impregnado na exposição de pensamentos existenciais. A gente começou a trilogia de ‘Lamparina da Aurora’, que vai ter o ‘Noite Ambulatória’ e mais um. Outra trilogia que está sendo baseada em personagens duplos”, antecipa o diretor.


Na entrevista a seguir, Frederico abre para o C7nema uma cabeça cevada pela rítmica do seu Nauro Machado e pela força lúdica dos versos da sua mãe, Arlete Nogueira da Cruz, também poeta, influenciado ainda por toda a sorte de realizadores e realizadoras que educaram o seu olhar.

Qual é o papel simbólico do Tempo no seu cinema?

Diria que a matéria de todo meu cinema é, de facto, a ressignificação do tempo. E isso é o que eu acredito ser a base de todo o cinema. É um tema recorrente a cineastas que admiro, como Béla Tarr e Tarkovski. Tempo é base e conceito para o cinema existencialista que tanto admiro e me comove. Afinal, o que é a vida e em que momento vem a sua finitude? O que de facto fica da nossa alma, de nossas ideias, ditadas pelo período de vida em que vivemos, depois que morremos? Como pode ser concretizada, em arte, em filme, esse pequeno período que vivemos? E os sonhos? Os pesadelos? De onde vem nosso medo? Nossas angústias? E para que nos serve esse tempo, esse limbo terreno que nos traz agonia e muita dor? A arte tem o poder de recriar e esculpir o tempo.

E lidar com esse tema através do cinema é algo muito poderoso e revelador. O cinema talvez seja a principal arte que pode retraduzir, retrabalhar o tempo. Seja através da montagem, do silêncio, das extensões dos planos, da decodificação dos cortes, dos quadros… Ou seja, não digo nem só através do tema do filme, mas sim da própria linguagem cinematográfica e de sua descodificação. A partir dela, esse tempo é recriado, é materializado. E para que temos esse tempo terreno? De dores, amarguras, solidão? Qual é a explicação para tanta maldade? A recriação do tempo, de seus efeitos e causas, talvez possam dimensionar meu caráter de pesquisador da alma humana, e fazer o meu próprio tempo nos meus filmes. Sendo subjetivo, rarefeito, eterno. Qual é o tempo “vivo”, real? Acho que o tempo verdadeiro é o tempo recriado na arte, refeito, reformado, recolhido na arte. Jacques Aumont, grande teórico, fala do respeito que devemos ter, nós, artistas, cineastas, pelo tempo “vivo”.

Mas indago aqui, por que o tempo recriado na arte não pode ser o tempo real? Verdadeiramente real? Ele é muito mais eterno que o nosso tempo “vivo”, desse nosso tempo físico. Espero que minha alma fique nos meus filmes. Que o tempo deles seja refeito, reimaginado, reconfigurado pelas pessoas que os vejam, e que ele seja eterno. 

Qual é a origem poética do seu olhar em relação ao próprio cinema? Ou seja, quem são os seus faróis nos ecrãs?

Sempre fui apaixonado pelo cinema que me instiga e que me faz perguntar, procurar… O cinema foi minha caverna onde me sentia seguro. Era para onde eu ia quando estou infeliz, quando estou perdido, quando estou com dor. A origem de meu cinema vem desse resguardo e desse amor pelo desconhecido. Pelo amor pelo que é diferente, pelo que é misterioso. Mas também por aquele que sofre, por aquele que tem dificuldade de se comunicar com o outro, como eu o era e sou. Pelo que está perdido. Como sempre fui na minha adolescência e na minha idade adulta. Além disso pelo amor incondicional pelo povo. Por uma necessidade de cuidar e revelar as agruras de uma população carente que não é ouvida, que é maltratada e subjugada.

É por isso que sempre cito três vertentes ou movimentos cinematográficos na minha obra, que são tanto referência como caminhos a percorrer, embora sei que o meu cinema lembra apenas de longe esses movimentos: o neorrealismo italiano pela forma que quero retratar os personagens comuns de meu estado, o Maranhão; o cinema existencial de Bergman com seus questionamentos e o seu poder metafísico; e por último o cinema erudito e rigoroso de um Béla Tarr ou Tarkovski. Mas são referências que se misturam. Porque, acima de tudo, acho que a matéria-prima de minha base cinematográfica e tema, como falei acima, é a questão do tempo e também a questão social em que o povo do Maranhão está inserido.

Faço filmes de género, terror metafísico, “road movie” experimental, drama social psicológico, mas tudo envolvido e retrabalhado com minha ideia de cinema e de maneira muito pessoal e sem medo de errar e ao mesmo tempo sem querer parecer pretensioso. Apenas ser pessoal e verdadeiro. Na realidade meu cinema é muito pequeno e humilde em termos de produção. Humilde também em termos de visualização. As pessoas no meu estado que fazem cinema não veem os meus filmes. Eles são mais conhecidos num meio “arthouse” ou de pesquisadores de cinema internacional.

O que representa a circularidade enquanto desafio dramatúrgico de montagem?

Todos meus filmes são trabalhados como “road movies” psicológicos que saem de um ponto e retornam ao final do filme para esse mesmo ponto inicial. Isso é uma questão metafísica e existencial também. O sentido de recriação. De nascimento e morte e ressurreição. Interessante a pergunta. Porque em termos de montagem, tento retrabalhar a história dos filmes de maneira que o público a complemente sempre.

Atualmente, sinto o cinema mundial e brasileiro acomodado em termos de estruturas narrativas e histórias. Não há uma coragem de recriar um mundo próprio. Interessante dizer também que todos meus filmes até ao momento são filmes de montagem. Tenho a estrutura deles na mente desde o início, mas a produção, a filmagem, é que me dá o material, e a montagem o que me dá a resposta.

Como avalia a importância do projeto Lume para a sua formação e para a decantação do seu projeto estético?

Eu estou bem cansado com essa história de formação… Tivemos a distribuidora, a produtora, os cinemas, os festivais, a escola… E não mudou muito, não… Aliás, piorou nesses 20 anos de trajetória. A unificação de formatos, via “streaming”, achatou e uniformizou tudo. Todos os filmes se parecem. Todos os filmes são distribuídos e pensados da mesma forma. As pessoas vêm e falam das mesmas coisas agora de maneira superficial. Nada é aprofundado. E acho que o cinema, como arte, está completamente sem rumo devido aos fazedores dessa arte e as pessoas que as divulgam e as pensam (críticos) e também aqueles que as recebem (público). 

Mas a esperança continua. Porque percebo que tem críticos que ainda procuram… Tem artistas ainda corajosos… Ainda respiramos e pensamos, apesar de tudo…. Ainda temos um Júlio Bressane fazendo cinema original, um Jodorovsky, Godard ainda resistindo ao tempo físico e retrabalhando seus pensamentos. E cineastas novos. Isso dá esperança. O facto é que não irei me acomodar. Fazer cinema é aprendizado. Aprender e apreender o mundo. As pessoas. Nosso tempo. Por isso, ao mesmo tempo que estou cansado, não me vejo fazendo outra coisa. É a minha vida.

Quais são os seus atuais projetos de longa ou curta e série?

O facto de não parar de produzir não me deixa muito espaço para sofrer. Acho que também o ritmo de minha produção é elevadíssimo para quem faz cinema hoje no Brasil ou em qualquer lugar do mundo. É algo que me motiva. Por mais dececionado que esteja com o processo cinematográfico atual, isso me dá mais força e vontade de transgredir. E ainda faço meu cinema muitas das vezes de maneira independente. Cinema de guerrilha na maioria das vezes. Vamos lançar o meu quinto longa-metragem, “As Órbitas da Água”, nesse segundo semestre nos cinemas brasileiros.

Entregamos “Punga”, série de 13 episódios para o Cine Brasil TV que codirijo com Helena Machado. Uma série surrealista existencial sobre cultura popular. Deve estrear em 2022. Estamos começando a produção de “Percurso de Sombras”, nova longa-metragem autoral, que será um filme de guerra passado em algum momento também dentro da mente de um personagem. É um projeto a ser filmado ainda neste ano. Entro em filmagem, também agora, já em outubro, uma cinebiografia sobre o criador do Guaraná Jesus, um dos símbolos do Maranhão, também um “road movie” que trará muito do Maranhão e de seu povo. É um projeto em que fui contratado para dirigir, uma novidade na minha carreira. Mas sei que levarei muito de mim para o filme.

Ano que vem, tem “Noite Ambulatória” a ser filmado no Chile, um ‘thriller’ sobrenatural sobre a ditadura chilena. Tem “Purgatórios”, documentário sobre meu pai, o poeta Nauro Machado. Tem mais uma série, “O Baldio Som de Deus”, um faroeste passado nos anos de 1970 no interior do Maranhão sobre posseiros de terra e política. Todos projetos já prestes a começar… E ainda sempre faço algo relacionado ao cinema, em todas as esferas…

Arranjando tempo para dar um curso no IEMA nesse segundo semestre sobre cinema, cuidando dos cinemas da Lume e da Cinemateca Maranhense, além da Escola Lume de Cinema. E ainda têm a família. Minha mãe já idosa, minhas filhas e filho que necessitam de mim e eu deles. E a vida que me escapa… Acho que o Tempo terá de fato que ser recriado e estendido, como tento fazer e recriá-los com meus filmes.

Quantos anos tem, onde nasceu, quem e o que fazem/fizeram seus pais?

Já quase 50! Tenho 49! Passou tão rápido. Nasci em São Luís, cidade por que sou apaixonado e que me dá tão pouco em troca. Mas sou completamente apaixonado por essa cidade. Muito menos pelas elites dessa cidade. Mas São Luís tem uma beleza arquitetónica única. Tem festas incríveis populares. Ainda é uma cidade intocada pelo que é de fora. Tem uma atmosfera atemporal. O vento, o ritmo, os caminhos, o cheiro…

Meus pais são poetas e escritores. Nauro e Arlete. Minha base para o que sou. Acho que, de facto, transpareço muito dos dois. Foram meus alicerces como espero um dia ser para o meu filho e filhas. A literatura também é uma fonte de meu cinema. Que é muito mais poesia do que prosa. Mas quero citar Juan Rulfo e seu “Pedro Páramo”, Thomas Mann e sua “Montanha Mágica”, Bolaño e seu “2066”, Proust e “Em Busca do Tempo Perdido”…

Como falei acima, o tempo recriado também nesses livros, que também têm o tempo como seu principal tema, respira e nos mostra a essência e a procura de seus escritores pela vida. E, tenho certeza, a alma de seus escritores estão impregnadas naquelas linhas e é onde se dá a eternidade. Quero que meu cinema tenha intrincado, nas suas imagens e sons, a minha alma. É o que mais desejo. Por mais irregular que seja esse cinema, errado e desconexo. Mas que minha alma esteja eternizada nessas histórias, nessas imagens, nesses sons.

Frederico Machado à porta do Cine Lume.

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