Comemorando os 15 anos da sua obra mais aclamada, o filme de culto “Drained” (“O Cheiro do Ralo”), consagrado mundialmente após sua ida a Sundance, o realizador pernambucano Heitor Dhalia está de volta às telas com o poderoso “Anna”, um ensaio poético sobre a obsessão no universo do teatro. Exibido em 2019 no Festival do Rio, a longa-metragem constrói-se metaforicamente a partir de um abismo nietzchiano em que a loucura criativa de uma jovem atriz e de um encenador conduz ambos à tensão e ao perigo. Depois de ser aplaudido em Cannes com “Adrift” (“À Deriva”, 2009), lançado na mostra Un Certain Regard, Heitor teve uma passagem pelo cinema americano com “Gone” (“12 Horas”, 2012), um thriller com Amanda Seyfried, e acaba de rodar um novo projeto nos EUA, sobre imigração, ainda sem título. No seu país, ele é hoje um dos responsáveis pelo fenómeno “Arcano Renegado”, série exibida pela TV Globo sobre a polícia do Rio de Janeiro. Na entrevista a seguir, o cineasta fala ao C7nema sobre a sua imersão no universo dos palcos.
Qual é o conceito de obsessão – artística e afetiva – que norteia “Anna”?
“Anna” tenta investigar os processos imersivos e conflituosos que se estabelecem na criação artística, entendendo como relações abusivas e ao mesmo tempo afetivas se estabelecem. A obsessão de um diretor ou de um ator por fazer um papel faz as pessoas cruzarem linhas perigosas. Não existe criação de excelência sem esforço e, às vezes, dor. Mas daí surge a pergunta: qual o limite entre o desejo e a ética? Até onde é permitido ir para se fazer um trabalho grandioso? Qual o limite de cada um na sua busca individual pelo sucesso e reconhecimento?
O seu cinema cai recorrentemente no lugar da solidão. O que é a solidão em “Anna”? O que é a solidão do processo artístico?
No cinema, o processo é coletivo e há muita troca. Neste trabalho, tentei fazer um debate bem horizontal com o elenco e a equipa. Mas, no final, o diretor responde por tudo e a solidão da escolha definitiva é monumental. Ninguém vai pagar esse preço junto com você.
Quais são os planos para a sua carreira internacional e de que maneira o seu recente projeto feito nos EUA desenha esse trânsito exterior?
Rodei um longa em Nova York, ainda sem título definitivo. É um drama intimista sobre imigração, um retrato da era Trump. Filme delicado. Este ano, vou rodar a segunda temporada da série “Arcanjo Renegado”, e, em seguida, “O Jogo Que Mudou a História”, que conta o surgimento das facções no Rio. Um dos projetos mais esperados para o ano que vem é “Torto Arado”, uma série baseada no premiado livro de Itamar Júnior. Não tenho tantas expectativas sobre uma carreira internacional. Já rodei três filmes fora, mas, meu foco, cada vez mais, é o Brasil. Claro que podem surgir projetos para filmar fora, mas, hoje, minha prioridade é o meu trabalho neste meu país maravilhoso.
Lá se vão 15 anos de “O Cheiro do Ralo“. Que trajetória acredita ter feito de lá até aqui?
“Drained” (“O Cheiro do Ralo”) foi um marco na minha carreira. Assim como “Adrift” (“À Deriva”). Olho com muito carinho cada filme feito, com seus erros e acertos. As escolhas que fazemos e o que aprendemos com cada projeto. Fiz muito trabalhos importantes para mim. Construí uma produtora e uma vida com o cinema. Estou muito feliz com esse momento da carreira e acho “Anna” um filme maduro produto de todo aprendizado até aqui.

