Terra de Glauber Rocha, berço de filmes esplêndidos como “SuperOutro” (1989), “Mr. Abrakadabra” (1996) e “Eu Me Lembro” (2005), a Bahia agora aporta a sua poética audiovisual no maior festival mundial na indústria e na arte da animação: Annecy, em França.
De 14 a 19 de junho deste ano, pérolas animadas farão da cidade francesa um garimpo. Entre as mais reluzentes (sobretudo politicamente) está “Meu Tio José”, longa-metragem de estreia de Ducca Rios, confeccionado na capital baiana, Salvador.
A sua exibição integra a competição Contrechamp de Annecy, da qual o Brasil participa ainda com “Bob Cuspe – Nós Não Gostamos de Gente”, filme em stop motion de César Cabral. Wagner Moura, astro brasileiro de projeção mundial (via “Narcos” e “Tropa de Elite”), também nascido no estado que deu aos brasileiros “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), empresta a voz ao José de quem Ducca é sobrinho.

José Sebastião de Moura foi membro do grupo de esquerda Dissidência da Guanabara, cujo nome é sempre lido entre os responsáveis pelo sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick, em 1969 – episódio retratado em “O Que É Isso, Companheiro?”, indicado ao Oscar, em 1998. José foi morto no início dos anos 1980, num crime com evidências fortes de motivação política, até hoje não solucionado.
Na entrevista a seguir, Ducca fala ao C7nema do quão catártico o filme representa para a sua vida. E essa catarse, ao sair de Annecy, segue para o Vancouver Independent Film Festival, no Canadá, de 30 de setembro a 10 de outubro. A sua estreia no Brasil deverá ocorrer entre dezembro e janeiro, via a distribuidora Tucumán.
De que maneira o menino do filme, que procura escrever uma redação e não sabe como, alimenta-se das SUAS vivências e das SUAS memórias?
É um processo caótico de colagem de imagens, conversas com pessoas e vivências pessoais. Assim nasceu a ideia, a princípio disforme e titubeante, em busca de uma forma definitiva, de um recorte específico, até por fim se transformar num argumento concreto, aristotélico, com começo, meio e fim. Mas essa busca… eu diria que ela começou para mim quando ainda era adolescente, quando realmente dei conta do papel político de cada um e do meu próprio. O filme é o resultado de uma inquietação de muitos anos.a
Como funcionou a engenharia de produção do filme, em termos de número da equipa, de tempo de trabalho, de base de operação?
Uma longa-metragem em animação é um projeto sempre muito complexo, que demanda planeamento. Assim, o primeiro momento de trabalho é de descobrir qual o tamanho do “problema”, para elaborar qual a melhor solução. O roteiro de “Meu Tio José” pressupunha, desde o início, um filme com algo em torno dos 90 minutos, com o que ele acabou ficando no final e, sabendo que tínhamos um orçamento baixo, entendemos que não poderíamos realizá-lo integralmente, em quadro a quadro, por isso, optamos por utilizar, na maior parte do filme, a técnica de recorte (cut-out) digital.
Buscamos uma consultoria artística da Aída Queiroz (uma das criadores do festival Anima Mundi, o maior do setor nas Américas) que é uma excecional artista brasileira, e fizemos script doctor com o Geraldo Moraes, um excelente roteirista e diretor gaúcho, radicado em Salvador, que, infelizmente, faleceu antes de assistir ao filme.
O passo seguinte foi definir a direção de arte, que dividi com Chandler Vaz, e montar efetivamente a equipa de produção. O nosso estúdio, Origem, sempre produziu muitas obras em paralelo. Temos realizadas oito séries em animação, sendo duas com segundas temporadas; duas séries documentais que mesclam animação; cinco curtas metragens; e a longa-metragem “Meu Tio José”, além de diversos outros projetos.
Nós nos acostumamos desde sempre a trabalhar com a nossa equipa em conjunto com equipas externas de outros estúdios. Dessa forma, no total, envolvemos mais de cem pessoas, entre animadores, ilustradores, produtores, atores, técnicos de áudio, advogados etc. Com efeito, a base principal de operação foi em Salvador, na sede da Origem, mas tivemos outras bases em Santa Catarina e em São Paulo.
Qual é a dimensão simbólica de ter um baiano como Wagner Moura como a voz de José?
Nós sempre quisemos nos cercar de pessoas talentosas e com pensamento progressista em todos os campos da produção. Quando chamamos o Wagner, através de um amigo em comum, o Lula Oliveira, também cineasta baiano, e ele topou fazer, foi um grande presente para o filme. O Wagner é inegavelmente um dos melhores atores brasileiros. É um profissional com fama internacional. O facto de ser baiano fecha com chave de ouro essa escolha, pois é alguém que sabe o que é Salvador e que compreende a nossa história como povo.




