Mais bela longa-metragem brasileira de ficção a aportar nas telas da sua pátria neste primeiro semestre de 2021, destacado dos demais exemplares do género por transpirar resiliência e esgarçar fissuras morais, “Acqua Movie” marca o regresso de Lírio Ferreiro ao circuito seis anos depois de sua consagradora passagem pela Berlinale, com “Sangue Azul”. Depois de uma série de comemorações -web adentro – dos 25 anos de “Baile Perfumado”, realizado por ele em duo com Paulo Caldas, o cineasta que redefiniu a visibilidade de Pernambuco nos ecrãs do mundo regressa ao circuito da sua pátria, neste fim de semana, com o que promete ser o seu exercício mais maduro de dramaturgia.

Espécie de continuação tardia de “Árido Movie” (lançado no Festival de Veneza em 2005), a produção acompanha a viagem de uma documentarista, Duda (Alessanda Negrini), e do seu filho (Antonio Haddad), ambos de São Paulo, pelo Nordeste adentro. O desejo do rapaz é jogar as cinzas do pai (Guilherme Weber) no solo de Nova Rocha, onde nasceu. Mas um tio corrupto, Múcio (Augusto Madeira, numa atuação coroada pelo troféu Redentor de melhor ator secundário no Festival do Rio 2019) vai tentar cooptar o menino para si. Múcio deseja sobretudo inocular no garoto um sexismo retrógrado, somado ao desprezo que sente pelas comunidades indígenas, numa fome desmedida por terras. Mas a personagem de Negrini vê nos povos originários um galhardete de coragem e resistência.
A fotografia de Gustavo Hadba amplia o fascínio diante de um mundo onde tradições entram em erosão, do mesmo modo como a esperança dos brasileiros, diante da corrosão da democracia nas suas terras. Mas filmes como o de Lírio servem como um bálsamo diante do caos.
Existe uma dimensão de companheirismo que serve de norte a toda a sua obra. Mas neste filme mais recente, a solidão parece assombrar a personagem de Alessandra Negrini e todo o mundo à sua volta. O quanto dessa solidão reflete a natureza solitária das narrativas ‘on the road’? O quanto dessa solidão desenha a própria natureza de abandono do Brasil?
A primeira fala do filme é do filho para a mãe: “eu te odeio”. É o gatilho que obriga Duda a um exercício de reconstrução do afeto perdido e a leva a repensar toda essa desconstrução dramática pela qual a personagem precisava passar. Era necessária a invasão de um território hostil e o desencadeamento de uma cumplicidade mútua para que mãe e filho achassem o novelo que os unisse novamente. Alessandra, grande atriz que é, percebeu tudo isso e muito mais. Construiu divinamente a sua personagem em todas as suas camadas mais dramáticas e nas suas complexidades psicológicas. Entre as sutilezas e as nuances, trouxe para Duda uma alma solitária, um espírito que vaga e que detém um coração solidário nas grandes causas ambientais, mas que não consegue decifrar o seu próprio espelho, mesmo ele estando ali, bem debaixo do seu nariz. Nos tempos do “Árido Movie” experimentávamos uma sensação única de alteridade e de empatia que talvez, nunca antes tivéssemos vivenciado.
Numa comparação com esses dias nefastos que vivemos hoje, estávamos quase que à porta do paraíso. Hoje, estamos à beira de um precipício. Os artistas brasileiros foram demonizados, embora não sejamos os únicos a passar por tamanho tormento. O desgoverno que se apresenta é a própria essência da infantaria militar. Não nasceu para o diálogo, nem para entender e conviver com o contraditório. Semeia a total extinção de nossa classe acompanhada de uma estranha perversidade. É o governo das trevas e o seu comandante é o cavaleiro do mal. “Acqua Movie” oferece uma porta aberta para tentar espanar essa nuvem densa, nos colocando num campo em que eles não têm nenhuma desenvoltura que é o do exercício incondicional do afeto. Essa é a chave que o filme oferece ao país nesses tempos pandemônicos.
“O Crime da Imagem”, a sua primeira curta, vai comemorar 30 anos. São três décadas de carreira, nessa soma. Que Brasil você mapeou nesse tempo de estrada?
A primeira cena de “O Crime da Imagem” é um plano aberto de uma paisagem nordestina sob um sol escaldante que descortina a sua vegetação agressiva. Do nada, surge um beato cego portando seu cajado e vagando erraticamente, à medida que cruza o quadro até desaparecer. Essa imagem simboliza aquele instante da minha trajetória, adentrando cegamente num território estranho que era o Sertão e, ao mesmo tempo, o Cinema.
Com o “Acqua Movie” tive o privilégio de viver novamente aquela experiência sensorial agora na região que compreende o médio São Francisco e o polígono da cannabis. Território sagrado de grandes nações indígenas nordestinas, como o povo Truká, os Pipipã e os Pankararus, que sempre habitaram aquele lugar e onde realizavam seus Torés para celebrar os seus encantados. Para muitos, o Sertão é um território insalubre, árido, seco, com uma vegetação hostil. Para mim, é um território fértil, encharcado de poesia, com natureza singular e um povo extremamente solidário. Realizar filmes de estrada nesse ambiente, quase sempre me empenha a tirar-me da zona de conforto. Isso faz-mw sair do esquadro do roteiro. Faz-me ficar com os olhos bem abertos para o acaso e para a dúvida. Um road movie oferece isso, já que é um género essencialmente, cinematográfico. Aliás, o road movie é o próprio cinema. A estrada é o fluxo. O carro é a câmara. O motorista, a direção. Os seus ocupantes, o elenco. O motor, a produção. O velocímetro, o ritmo. O horizonte é o futuro que desejamos. O retrovisor é o passado que nos assombra. E há uma infinidade de narrativas que podemos escolher que são os atalhos, os desvios e os entroncamentos que não precisam necessariamente serem respeitados.
A que linhagem de políticos pertence o prefeito de Nova Rocha, vivido com esplendor por Augusto Madeira, que ganhou o troféu Redentor no Festival do Rio por sua potência?
O filme foi pensado, escrito, filmado e finalizado antes da última eleição que nos conduziu a esse desastre que vivemos nesse momento. Na verdade, todo esse espírito bélico e esse ódio reprimido sempre existiram no Brasil. Um país inventado em cima do genocídio dos povos originários e dos 300 anos de escravização para manter os privilégios de quem conduz. Toda essa demência estava apenas adormecida e, volta e meia, sempre reaparece para nos assombrar. Dito isso, Múcio – o prefeito de Nova Rocha – pertence à linhagem de filhos mimados dos coronéis do Sertão que se vestem com paletós aparentemente mais modernos, embora os seus corações sejam indefectivelmente arcaicos. Representantes do que do pior que existe na triste história desse país.
Quais são os seus novos projetos?
Nesse exato instante, estou a finalizar juntamente com a minha querida parceira de longas viagens, a montadora e cineasta Natara Ney, um documentário que joga um olhar afetuoso sobre a trajetória do incrível fotógrafo Carlos Rodrigues Filho, também conhecido como Cafi. Junto com Cláudio Assis, estou me preparando para filmar – quando passar essa pandemia e podermos voltar a voar – um outro documentário sobre o disco Vivo de Alceu Valença. Aproveitei, também, o isolamento para escrever um roteiro de ficção sobre utopia e psicodelia.

