Ao disputar a Palma de Ouro de Cannes pela quarta vez, em 25 anos de carreira, em 2017, com “O Dia Depois”, o sul-coreano Hong Sang-soo foi desafiado pela imprensa a dar uma definição sobre um estilo comummente classificado de minimalista ou palavroso, em filmes nos quais as pessoas bebem, comem e falam, falam, falam. “Não espero o mistério de uma ascese que revele as verdades sobre a realidade. Não espero encontrar sentidos. O que faço é escrever sobre as coisas que conheço bem, com personagens que não necessitam de muitas variáveis de profissão ou de missão a ser cumprida. Filmo aquilo que está à minha volta, focando-me em pequenas coisas e evitando conceitos. Tento é expandir os gestos simples, ampliar a simplicidade das relações, das palavras mais corriqueiras. Não construo imagens que possam ser espremidas em busca de significados. Filmo ao meu redor e deixo fluir a interação entre os atores. Não quero proposições que confinem os planos. Quero pulsões que arejem”, explicou o realizador de 60 anos que abriu o ano cinéfilo português de 2021 com quatro longas-metragens em cartaz, desde o dia 7 janeiro.
Dele, a Midas Filmes estreou esta semana em Portugal “A Mulher Que Fugiu” (“The Woman Who Ran”/ “Domangchin yeoja”), vencedor do Urso de Prata no Festival de Berlim de 2020, onde foi alvo de uma ovação. O seu lançamento foi acompanhado pela exibição de outros três títulos: “Mulher na Praia” (melhor realização no Festival de Mar Del Plata, em 2006), “O Filme de Oki” (distinguido em Roterdão, em 2011) e “O Dia em que ele Chega” (presente na Un Certain Regard de Cannes, em 2011). “Sempre que termino um filme, sinto-me como se tivesse ultrapassado um certo obstáculo, em mim e no meu convívio com a equipa. É realmente bom para mim, como ser humano, finalizar uma expressão narrativa em que não parti de um conceito prévio e, sim, da liberdade da vivência, da triagem. Espero que para algumas pessoas, nas plateias, os meus filmes façam a mesma coisa. Espero que vivê-los traga alguma satisfação”, disse Sang-soo em entrevista ao C7nema em Berlim, em 2017, quando o seu “Na Praia À Noite Sozinha” deu o Urso de Prata de melhor interpretação a Kim Min-hee. “O que me perguntam sobre o processo, eu respondo com observação. Apenas isso. Quando crias com base num princípio prévio, amparado num projeto teórico, o que se faz é repetir o que se ouviu e o que se viu no passado, sem estar aberto ao momento. Só sou o que vivo no meu momento presente. Não serei mais como era hoje amanhã. Não sou hoje o que era ontem”.
Classificado por alguns como mestre e por outros como um repetidor de rizomas, que faz equações matemáticas e não filmes, Hong Sang-soo confirmou a fase de bonança do seu país nos ecrãs ao vencer em Berlim, em 2020, o prémio de melhor realização. A sua vitória em solo alemão veio vinte dias depois da Coreia do Sul ter levado quatro Oscars para casa, apoiado na engenharia narrativa de Bong Joon-Ho e do seu “Parasitas”. Uma história construída nos trópicos da simplicidade (aparente) garantiu o prémio de realização ao sexagenário cineasta. Prémio que o artista responsável por jóias como “Sítio Certo, História Errada” (melhor realização em San Sebastián, em 2016) e “Noutro País” (2012) recebeu das mãos do pernambucano Kleber Mendonça Filho, o responsável por “Bacurau”. O brasileiro integrava o júri presidido pelo ator inglês Jeremy Irons. Kleber usou o adjetivo “o grande” para se definir ao realizador coreano, cuja carreira começou em 1996, com “The Day a Pig Fell Into the Well” (O Dia Em Que o Porco Caiu no Poço).
“O cinema não pode ser construído como uma linha férrea na qual um comboio segue o mesmo trajeto todos os dias. O cinema que procuro precisa de algo novo, do inesperado que ocorre quando nos sentamos num bar para tomar uma cerveja. O que me leva a querer trabalhar são as múltiplas possibilidades de sentido que brotam de uma conversa num bar. Eu sei o que é uma conversa dessas. E não preciso criar uma intriga de investigação para que isso soe vivo. Basta eu deixar as atrizes e os atores trabalharem esse texto”, explicou Sangsoo em Berlim, onde o C7nema questionou sobre sua recorrente reflexão sobre “amizade” e “solidão”. “Se me perguntares sobre a ‘amizade’, que é uma questão em ‘A Mulher Que Fugiu’, posso até dizer-te o que entendo dessa palavra, mas aquilo que disser só serve para a minha experiência individual. Não é cinema. Cinema é aquilo que encontro quando ligo a câmara e deixo as coisas acontecerem”.
Cozido num banho-maria que contagia, “A Mulher Que Fugiu” é um estudo sobre o companheirismo. Parceira de vida e de obra do cineasta, a premiada atriz Kim Ninhee vive Gamhee, a mulher de um tradutor que, num dia sem a companhia do marido, vai visitar as amigas. Comendo, bebendo, rindo e trocando confidências (numa cena, uma mulher pergunta-lhe se ela ama o marido, tendo como resposta um riso azedo e um tempo de silêncio), Gamhee disseca a lógica mais redentora da desatenção, encarando uma solidão existencial. “Quando fomos filmar a primeira cena, descobri no local das filmagens um quintal com galinhas e aquilo pareceu-me diferente, para um condomínio da Coreia. Tinha que incorporar aquelas aves de alguma forma e filmei-as. Se me perguntares sobre o sentido daquele galinheiro num filme que se chama ‘A Mulher Que Fugiu’, vou dizer-te que é só um grupo de galinhas. Não vou ao osso da imagem, não espremo planos atrás de lógicas que possa pressupor. Gosto de trabalhar na superfície das coisas, porque nelas há todo um mar de códigos que não sei decifrar”, explica o realizador, cuja carreira foi catapultada para o sucesso com a vitória de “HaHaHa” na Un Certain Regard de Cannes, em 2010. “Não saberia dizer se a Gamhee é a ‘mulher que foge’ ou ‘a que corre’ do título. Esse nome veio-me à cabeça. Gostei dele e usei nesse contexto, mesmo sem ver uma relação. Talvez ele revele-se mais adiante. Talvez não. Gosto quando uma ideia aparece. Gosto quando encontro algo que me atrai”.
Logo no início de seu “A Mulher Que Fugiu”, talvez a mais divertida de sua trajetória recente, um homem bate na porta da casa onde Gamhee está a beber com as amigas. A dona da casa abre e escuta o vizinho a reclamar do facto dela alimentar os gatos que por ali passam. Segundo ele, os felinos são predadores. A maneira como a jovem, usando retórica e silogismos, rebate os argumentos do sujeito levou Berlim às gargalhadas e a uma salva de aplausos. “Encontrei os gatos por ali, escrevi uma cena com eles e filmamos. É uma questão de incorporar o mundo que nos rodeia”, explica o cineasta, que mantém uma média de um filme por ano, às vezes dois, num período de 12 meses. “Monto os filmes que faço durante a rodagem. Filmando uma cena, já sei o que cortar”.

