Agustín Almodóvar: «O melhor cinema espanhol da atualidade é feito fora da Espanha»

(Fotos: Divulgação)

San Sebastián, que realiza o seu festival anual de 20 a 28 de setembro, anunciou nesta quarta a projeção de gala de Dor e Glória, em sintonia com a recente consagração do mais recente filme de Pedro Almodóvar, que passa nesta quinta no Lido para receber um Leão de Ouro honorário.

Inaugurado nesta manhã com a projeção de La Vérité, primeiro trabalho em língua inglesa e francesa do cineasta japonês Hirokazu Koreeda, Veneza escolheu o mítico realizador espanhol para receber a sua honraria simbólica de maior prestígio, exibindo alguns dos seus sucessos. Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (1988) é a atração central dessa homenagem. E esse tributo acaba, na prática, coroando também o homem que afina a equação financeira das produções de Pedro: o seu irmão mais novo, o produtor Agustín Almodóvar. Cinco anos de vida separa os dois.

Assim que esquadrinhou o sector financeiro de Dor e Glória, Agustín dimensionou para si um pequeno papel para atuar ao lado de Antonio Banderas. Desde 1978, quando ajudou o seu mano na curta-metragem Salomé, este ex-químico e professor de Ciências, pai de dois filhos adultos, consegue sempre roubar uma ponta para aparecer nos filmes que ajuda a tirar do papel. Quando as produções são dirigidos por outros – como é o caso de Zama, de Lucrecia Martel, a presidente do júri veneziano deste ano – ele fica apenas restringindo nos cálculos financeiros. Mas o faz com o empenho de quem sabe o valor do intercâmbio entre culturas cinéfilas.

O melhor cinema espanhol da atualidade é feito fora da Espanha, na América Latina, onde se filma com liberdade e com gosto pelo risco estético. Os espanhóis filmam hoje preocupados com o potencial comercial e não com o senso de descoberta. No meu país, temos Pedro, mas tem, por outro lado, um esquecimento em relação à tradição. Nomes como Luis García Berlanga, muito importante no passado graças à sua ousadia narrativa, precisa ser redescoberto pelos jovens, que não ouvem mais falar dele, assim como não se fala mais em Carlos Saura“, disse Agustín ao C7nema na cerimónia de entrega dos troféus Platino, no México, no início das filmagens de Dor e Glória.

Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos

A sua bandeira é o risco. “Tanto como produtor quanto como espectador, gosto de propostas cinematográficas que se arriscam artisticamente. E esse tipo de narrativa está em solo latino, onde existe um cinema muito bom. No contacto com a Bananeira, de Vania, aprendi que o Brasil, embora viva hoje em meio a conflitos, conta com dispositivos de apoio ao cinema. É importante que um país do tamanho e da complexidade cultural do Brasil tenha a preocupação de apoiar o seu cinema. Conseguimos fazer ‘Zama’ por um caminho de intercâmbio que considero muito valioso“, diz Agustín, que desde 1988, quando encampou o projeto do irmão de lançar Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos, afastou-se de seus compromissos com aldeídos e cetonas para investir na química do cinema.

Há 31 anos, vive produzindo longas-metragens e estabelecendo coproduções com a América do Sul, entre elas o êxito Relatos Selvagens (2014). “Pedro tem um cinema único. Ele faz filmes de uma maneira bem peculiar, pois filma o argumento na ordem em que as coisas se passam na história, de modo a manter os atores unidos, com uma energia que corresponde à ordem ficcional da evolução dos eventos. Em geral, as filmagens obedecem uma ordem de conveniência. Às vezes, um set começa pelas cenas finais, por razões orçamentárias. Com Pedro, não“, explica Agustín, nascido em Calzada de Calatrava, há 64 anos.

Bom de contas, Agustín lembra que havia também uma média alta de espectadores para os melodramas de Almodóvar. Mas este número vem mudando por conta das novas medias digitais. “No fim dos anos 1990, os filmes de Pedro chegavam a somar 2,5 milhões de pagantes na Espanha. Mas hoje, tem menos pessoas indo ao cinema. Porém esses espectadores ainda são fieis aos nossos filmes: eles agora assistem aos nossos filmes em outras plataformas“, explica o produtor. “Os nossos filmes somam hoje cerca de um milhão de espectadores espanhóis. Mas ele ainda é consumido. Houve recentemente um festival na Europa que fez uma retrospetiva nossa e estava cheia de gente com menos de 20 anos. Tem sempre alguém acompanhando o que Pedro faz, mesmo em diferentes formatos. Mas eu fico feliz quando o primeiro contacto das pessoas com os nossos filmes se dá pela grande tela“.

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