Manoel de Oliveira ganha retrospetiva no MAM do Rio de Janeiro

(Fotos: Divulgação)

Templo sagrado da cultura brasileira desde a década de 1960, a Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ) inicia esta quinta-feira (23) uma das mais ambiciosas revisitações já dedicadas no Brasil ao maior cineasta da história de Portugal. A abertura da retrospetiva dedicada a Manoel de Oliveira (1908–2015) faz-se com Francisca (1981), uma das obras-primas do realizador portuense, ponto de partida para um ciclo que acompanhará, ao longo dos próximos quatro dias, oito décadas de uma filmografia decisiva para o cinema mundial.

Laureado com uma Palma de Ouro Honorária em 2018, Oliveira realizou filmes durante impressionantes 84 anos, desde Douro, Faina Fluvial (1931) até Um Século de Energia (2015), estabelecendo um recorde praticamente inalcançável de longevidade artística. Embora tivesse produzido títulos fundamentais nas primeiras décadas da carreira, só a partir do final da década de 1960 conseguiu filmar com regularidade, alcançando, nos anos 1980, o reconhecimento internacional que o transformaria numa presença constante em Cannes, Veneza e Berlim.

A singularidade da sua obra reside numa linguagem profundamente antinaturalista. Oliveira recusava a transparência narrativa do cinema clássico para construir um universo de imagens rigorosamente compostas, próximo da pintura e do teatro, no qual a palavra assume um peso musical e filosófico. Não por acaso, costumava definir o cinema como “a arte que reúne todas as outras”, ideia que reiterou durante a sua visita ao Brasil, em 2004, quando participou em encontros com o público e afirmou que o cinema “não copia a realidade; cria uma nova realidade”, sintetizando uma conceção artística que atravessa toda a sua filmografia.

Essa visão voltaria a ecoar em 2010, quando regressou ao Festival de Cannes para apresentar O Estranho Caso de Angélica, integrado na secção Un Certain Regard. Já centenário, revelou aos jornalistas que aquele projeto o acompanhava havia cerca de seis décadas. “Queria fazer este filme há sessenta anos”, confessou, explicando que apenas então encontrara as condições para concretizar uma ideia antiga que atravessara boa parte da sua vida criativa.

Na mesma conferência de imprensa, foi confrontado com um dos temas centrais da sua obra: a morte. A resposta surgiu com a serenidade que caracterizava o realizador. “A morte é uma condição. Desde que nascemos, só existe uma certeza: a morte. Não tenho medo dela. Só tenho medo da dor.” A declaração tornou-se uma das mais emblemáticas da sua carreira pública e ajuda a compreender uma filmografia na qual memória, tempo, desejo e finitude dialogam continuamente.

Oliveira aproveitou ainda a ocasião para manifestar preocupação com a crise económica que então atingia Portugal e Espanha, lamentando “uma perda muito séria de valores”, ao mesmo tempo que criticava a crescente aceleração narrativa do cinema comercial, observando que Hollywood parecia aproximar-se cada vez mais da lógica televisiva, privilegiando a velocidade em detrimento da contemplação.

É precisamente essa dimensão contemplativa que a retrospetiva da Cinemateca do MAM convida agora o público carioca a redescobrir. Depois da exibição inaugural de Francisca, o ciclo prossegue com obras fundadoras como Douro, Faina Fluvial, Aniki Bóbó, Acto da Primavera, O Passado e o Presente e Benilde ou a Virgem Mãe, permitindo acompanhar a evolução de um autor que transformou o tempo na principal matéria do seu cinema.

Mais do que uma homenagem, esta retrospetiva reafirma a atualidade de um cineasta que fez da imagem um espaço de pensamento e cuja influência permanece viva no cinema contemporâneo, mais de uma década após a sua morte.

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