A melhor maneira de ver este filme é não saber nada sobre ele de antemão. Veja antes que ele o veja a si!‍” A logline deste projeto de Guido Hendrikx, realizador de “Escort” (2013), “Among Us” (2014) e “Stranger in Paradise” (2016), estreado mundialmente no CPH:DOX, não podia ser mais críptica e chamativa.

E a verdade é que não devíamos, mas explicamos o que está em cena. Alguém (um verdadeiro enigma dizer quem, embora a sugestão seja o próprio Guido) anda por um povoado holandês a bater à porta das pessoas ou cruzando-se com elas nos seus jardins, filmando-as apenas e não proferindo uma única palavra, envolvendo-as assim numa camada sinistra de silêncio.

Muitos podem associar imediatamente o conceito a uma espécie de partida, a “apanhados” (pegadinhas, no Brasil), ou daquelas experiências sociais que invadem os canais do Youtube ou Facebook. O que se captura é a reação das pessoas, que sem sucesso e consecutivamente tentam decifrar o que aquela entidade enigmática, que não oferece explicação para o está a fazer ali e porque os filma. 

Uns sorriem, outros reagem agressivamente, mas há também aqueles que escancaram a porta e dão acesso ao seu mundo, às suas vidas, intrigados pela figura que nunca larga a câmara, o cine-olho, uma referência a ”O Homem da Câmara de Filmar” de Dziga Vertov, um dos (senão “o”) filmes de maior influência em toda a História do cinema documental, utilizando o olho da câmara como mecanismo de revelação do real, desta vez sem destaque para qualquer avanço técnico na sétima arte, mas mantendo o tom experimentalista da captura, enquanto impele uma forma provocativa na interação.

Progressivamente, e consoante a reacção das pessoas,  este “homem da câmara” regressa ao espaço, desenvolvendo amizades sem nunca revelar intenções, falar ou aceder interagir em qualquer mecanismo social de interação direta com o objeto capturado.

Um filme simples na sua complexidade, com escassos 60 minutos, mas capaz de na ausência da tradicional forma de comunicação produzir interações sociais, primeiro em estado bruto, sempre com a câmara a condicionar as reacções, mas depois ligando-se a essas mesmas figuras, ganhando ele mesmo uma posição no universo que inicialmente era o seu objeto de captura.