Onze anos depois de “Reindeerspotting: Escape from Santaland” (referência clara a “Trainspotting“), Joonas Neuvonen – acompanhado por Sadri Cetinkaya – regressa com mais um documentário que serve como sequela, prosseguindo no mesmo registo os eventos que se seguiram aos narrados no primeiro filme, que acabaria por ter sucesso e celebrado.

Se Jani Raappana era o foco de um trabalho que documentava o consumo de drogas e o pequeno crime como forma de escape para descobrir o mundo além do que se afigurava na sua vida, no norte da Finlândia, “Lost Boys” conta-nos o depois, com três rapazes a partirem para a Tailândia para apreciarem ao máximo as drogas e o sexo, mas a envolverem-se num verdadeiro inferno de exageros que derradeiramente levou à morte de Jani.

O centro agora é o nosso realizador, Joonas, que parte em busca de pistas sobre o desaparecimento e morte do amigo, alguém que há muito ele tinha notado que estava perdido, fora de controle, e que já não era consumidor de drogas inofensivo que conheceu na passado.

Se o primeiro filme assentava no registo cru, mas um pouco amador, da vida dos toxicodependentes e em especial de Joni, uma década depois as imagens captadas neste  novo documentário –  que se assume como um filme de mistério e de investigação quase policial – adquiriram todas as formas do cinema profissional, trazendo a garra e estado bruto da captura de imagens de “Reindeerspotting“, mas estilizando a forma profundamente com ajuda das novas câmaras de qualidade no mercado, um trabalho de fotografia cuidado e, acima de tudo, uma montagem de Cetinkaya e Venla Varh que nos submete tanto ao calor das noites em clubes noturnos, como a frieza nervosa das vielas por onde somos conduzidos.

Assim entramos novamente num novo diário de bordo, entre Banguecoque (Tailândia) e Phenom Pehn (Cambodja), locais em que os dois colegas de Joonas transitaram frequentemente, envolvendo-se em tropelias e até namoros, como aconteceu com Jani, que se apaixonou por Lee Lee, uma rapariga que conheceu num bar. 

Essa crueza das imagens captadas, entre a gímnica da câmara oculta ou daquela bem presente (diretamente a fazer close-ups intensos nas “personagens”), traz-nos complexas sequências, que passam pelo consumo de drogas, de situações de sexo explícito, e de um emaranhado de inquéritos na rua para descobrir a companheira de Jani para assim tentar chegar o mais próximo possível da verdade. Será que Jani suicidou-se como dizem as autoridades ou foi assassinado?

Lost Boys” é certamente um filme a descobrir na competição do CPH:DOX, trazendo-nos à memória objetos tão distintos e cruéis como “Christian F”, “Expresso da Meia Noite” ou qualquer documentário criminal, em que pista a pista vamos tentando delinear a sequência de eventos que conduziram aquele desfecho para Jani.

E no final, há ainda espaço para reflexão (até política, social e histórica sobre o passado violento das duas nações e as suas consequências no presente), sem qualquer paternalismo, moralismo ou ideia que a história acabou aqui.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
lost-boys-no-rasto-da-droga-e-da-morte“Lost Boys” é certamente um filme a descobrir