Aganai, em japonês, significa expiação, cumprimento de pena ou castigo (que se reputa equivalente à culpa ou delito), o que se aplica em toda a extensão neste sentido documentário, que longe da observação pacífica e neutra, entra pelo terreno da confrontação, não diferente dos filmes de Michael Moore ou até do recente trabalho de Nani Moretti sobre a ditadura chilena. Em “Santiago, Itália” o realizador de “O Quarto do Filho”, num dos momentos mais marcantes, confronta um dos torturadores de serviço de Pinochet, e diz-lhe sem qualquer dúvidas: “Não sou imparcial“. Atsushi Sakahara, realizador deste “Me and the Cult Leader”, com passagens pelo Doclisboa e o É Tudo Verdade, também não o consegue ser perante Hiroshi Araki, o chefe de relações públicas de Aleph, como o culto Aum Shinrikyo (Verdade Suprema) agora se autodenomina.

No dia 15 de março de 1995, o líder desse culto, Shoko Asahara, com vista a atacar o governo japonês e uma série de edifícios governamentais, perpetrou o atentado na estação de metro Kasumigaseki em Tóquio com sarin, um gás nervoso mortal. Treze passageiros morreram, 6.000 saíram feridos, muitos dos quais sofrem até hoje consequências físicas e psicológicas do evento, incluindo Atsushi, que no seu documentário expia o fracasso do seu casamento (com uma mulher que veio a descobrir ter sido membro do culto) e o suicídio de um amigo que não conseguiu evitar. Nas suas conversas com Hiroshi Araki, pacíficas mas longe de uma conversa de bons amigos (coisa que nunca poderão ser) ele expia os seus pecados, tendo – num sentido mais constragedor- do outro lado, o mesmo tipo de resposta, já que a ligação de Araki ao culto vem já desde os anos 90, quando ele decidiu reinventar-se, cortando a sua ligação com a família e abraçando as ideias de Shoko Asahara.

Me and the Cult Leader” é um objecto tremendo, com dois homens a moverem-se em conversas profundas sobre as suas vidas e ideias, que se cruzaram naquele dia 15, e que mexeram com o destino de cada. E é também um objeto de confrontação, em especial na sua reta final, quando o cineasta coloca ao entrevistado questões diretas e essenciais de resolução e sobrevivência a um trauma individual, que se tornou também no de uma nação.

Um enorme filme cheio de material para reflexão, especialmente na vertente de investigação ao terrorismo ativo e passivo, nunca perdendo o lado mais humano de se observar como se seguem ideias que a certo ponto foram capazes de resultar no perpetrar de atrocidades.