“Swan Song” tem algumas limitações e sabe disso, mas a força dramática de Udo Kier parece não ter barreiras já que o alemão brilha mais intensamente que o falso candelabro que carrega na cabeça numa atuação como Drag Queen num clube gay prestes a fechar.
Compreenda-se que estamos perante um ator que caminha já para os 300 créditos, entre cinema e tv, e que no seu percurso desde a década de 1960 já interpretou 3 vezes Hitler (Iron Sky: The Coming Race; Mrs. Meitlemeihr; 100 Jahre Adolf Hitler), várias vezes o papel de vampiro (Sangue Virgem para Drácula; Blade), Frankenstein (Carne Para Frankenstein) e Dr. Jekyll (Dr. Jekyll e as Mulheres). E trabalhou com Lars Von Trier – de quem é padrinho da sua filha – em vários projetos (O Reino; Manderley, etc), Dario Argento (Suspiria), Gus Van Sant (Até as Vaqueiras Ficam Tristes), Walerian Borowczyk (Lulu), Rainer Werner Fassbinder (A Terceira Geração; Berlin Alexanderplatz) e, mais recentemente, com Kleber Mendonça Filho, em “Bacurau“.
Já o vimos fazer de tudo um pouco, mas sem cair na tentação de chamar a esta a sua melhor interpretação, uma coisa é certa: o seu papel como um antigo cabeleireiro/esteticista famoso está dentro das suas prestações mais genuínas e ternas, capaz mesmo de figurar na temporada de prémios de 2022, não apenas no circuito de cinema independente (Independent Spirit Awards), mas quiçá nos Globos de Ouro, que têm uma categoria própria para a comédia.

Em “Swan Song“, ele é Pat Pitsenbarger, figura de vanguarda e antigo ícone gay da sua comunidade (“o Liberace de Sandusky“, como dizem), mas que agora se encontra encerrado numa casa de repouso no Ohio a ver passar os dias com inúmeras restrições devido a sucessivos AVCs que o debilitaram. Quando Rita Parker Sloan (Linda Evans), uma antiga cliente, morre e os familiares querem que ele execute o último arranjo estético na falecida, recusa, respondendo com tanta perversidade como ressentimento: “Enterrem-na com uma bandolete”.
Esta é apenas uma das tiradas cruéis que a sua personagem vai debitar durante o filme, já que eventualmente, e vendo o mundo amorfo onde se encontra, decide aceitar a tarefa, iniciando-se uma jornada que o vai levar a passar pela sua antiga cidade, onde o seu salão de beleza era ponto de encontro para a nata da sociedade.
Filme sobre a velhice e a deterioração física & mental, “Swan Song” revela ser igualmente sobre o “apagar” do rasto de uma vida e do natural desajustamento de Pat perante os novos tempos, chegando mesmo a confessar que nem sequer “sabe como ser gay nos dias de hoje“. E é assim que, pegando em temas caros para Clint Eastwood (Space Cowboys; Gran Torino; Correio de Droga), o realizador Todd Stephens, conhecido pelos dois filmes “Another Gay Movie”, em 2006 e 2008, apresenta um olhar dedicado e delicado sempre ligeiro e bem humorado sobre a vida de alguém que vagueia por espaços repletos de recordações luminosas, mas também de “traições”, como a feita pela sua antiga assistente que o abandonou (Dee Dee Dale), abriu um novo salão de beleza e roubou-lhe a sua maior cliente (Rita), aquela que agora vai embelezar pela última vez.
Um filme interessante que nos leva a refletir pelas marcas que deixamos numa comunidade, mas que vive obviamente da prestação cheia de maneirismos e ternura de Kier. Que este filme não seja de todo o seu canto do cisne, pois ainda tem muito para dar ao cinema.



















