Ensaio sobre síndromes paranoides semeadas e alimentadas pelo desamparo estatal e pela cultura do ódio que se espalha, qual lençol nos estendais da Europa, “Mitra” atropelou Roterdão com uma observação sobre as ansiedades de uma mãe fraturada no seu amor materno. É uma ponte aérea Irão x Holanda que se consolida no tráfego de afetos represados de uma vingança que, como todas as outras, mata a alma e a envenena.
Essa ponte entre nações é estabelecida aqui num imaginário traumático, numa melancolia nas raias da raiva. Melancolia que a câmara do diretor de fotografia Daan Nieuwenhuijs regista sem excessos, sem chiaroscuros apelativos para os fantasmas do rancor. Há apenas uma dicotomia plástica no espectro arenoso do filtro que traduz o Passado e no espectro plúmbeo nas imagens do Presente. O que se viveu ontem parece desmanchar num fortuito e analgésico esquecimento. E o que existe agora, pesado, é sólido como chumbo. Mas essas coisas hão de confundir-se. E essa confusão isenta a direção de qualquer necessidade de bruxulear o que se vê, de ressaltar o que deve ser implícito e sugestivo. Já existem problemas demais no coração de Haleh (Jasmin Tabatabai), a protagonista, para que o realizador desta doída longa-metragem, Kaweh Modiri (da curta “My Burglar and I”), gaste esforço em vão sublinhando um tracejado de farpas que ela carrega em seu olhar. São farpas que a estonteante atuação de Jasmin torna ainda mais afiadas.
Tintas hitchcockianas tingem a narrativa que vai-se estabelecer em torno de Haleh num ciclo de 37 anos de luto. Em 1982, perde sua filha num atentado no seu Irão natal. O fantasma da pequena, Mitra (Dina Sarif), ainda atrai o seu olhar pelas ruas. Quase quatro décadas depois, em 2019, Haleh, já grisalha, vive nos Países Baixos. Ela ganhou notoriedade nas Ciências Políticas que estudam os conflitos da Revolução Islâmica. Mesmo descrente de qualquer manifestação de afeto caloroso, será tomada visceralmente por um sentimento que a faz sentir viva, ainda que pelos motivos menos harmoniosos, ao ser informada de que a mulher que traiu Mitra, delatando-a aos seus assassinos, mora agora em solo holandês.
Aquela informação tem, no roteiro escrito por Modiri (a partir de questões biográficas ligadas a uma tragédia similarna sua família), um mefistofélico expoente. Ao mesmo tempo que essa informação liberta Haleh, corporificando a sua mágoa contra um inimigo sem rosto nem nome, ela prende a protagonista numa jaula de revanchismo. A necessidade de dar o troco ao “inimigo” é o combustível para que desfaça as pazes com o seu sofrimento e se reinvente como justiceira.
Só a necessidade da justiça já abriria, no filme, um dilema ético sólido. Mas a ferida é ainda mais gangrenada: a suposta traidora é, também, uma mãe de família, e das mais amorosas, tendo deixado o Irão para cuidar da filha (pois é… também é uma miúda) no Velho Mundo. Impelida a agir, Haleh vai-se aproximar da mulher que gerou o seu sofrimento de um modo parasitário. Usando o facto de ser também uma iraniana fora do lar, ela vai-se instalar na vida de sua “algoz” e aproximar-se da sua cria disposta a um tipo de maldade que não acreditava serem capas.
As areias do passado, sobre as quais acima falou-se, tornaram-se vidro. Um vidro que Haleh pode espatifar criando cacos tão pontiagudos e cortantes que podem ferir os seus próprios ideias de paz. E é nesse ponto que a reflexão existencial aberta por Modiri fica tão densa: qual é o preço a pagar-se para a satisfação pessoal quando o desejo em questão passa por cicatrizes geopolíticas?


















