Com uma carreira iniciada nos anos 90, Sébastien Lifshitz já se pode considerar um veterano nas andanças do cinema (documental e ficcional), tendo particular apetência para temas relacionados com a homossexualidade, com obras como “Quase Nada” (2000), “Les invisibles” (2012) e “Bambi” (2013) a conquistarem vários prémios no circuíto dos festivais.

Quando falamos com ele em 2004, por ocasião da estreia de “Wild Side”, explicou-nos o que o movia no seu processo de construção cinemática, e que se aplica – mesmo longe de temáticas LGBT – igualmente neste “Adolescentes”, lançado em 2019 e a concurso no My French Film Festival, : “A questão de identidade é verdadeiramente central, assim como da família. Quando falo da família não é apenas a real mas aquela recomposta pelas nossas vivências. E a questão da identidade, saber-se quem se é.

Filmado durante 5 anos, num registo observacional, “Adolescentes” faz um retrato de Emma e Anaïs, duas miúdas que o realizador conheceu e filmou dos seus 13 anos até à maioridade (18 anos). Das conversas sobre os miúdos bonitos da escola, até conflitos com os pais, passando por discussões à volta da sociedade francesa da última década, onde não falta o seu olhar aos atentados terroristas e às eleições presidenciais do país, o filme – numa pensamento formal semelhante a “Boyhood“, de Linklater, por exemplo – traça de uma forma muito curiosa um retrato da adolescência e da construção da personalidade, da tal identidade, onde não faltam as individualidades e particularidades que vão ganhando destaque, mas igualmente as ramificações políticas e sociais baseadas na convivência familiar e estrutura de classes, apresentando os dois grandes blocos que hoje se observam na sociedade francesa: de um lado os  apoiantes relutantes de Macron, apenas nesse bloco pelo medo da extrema direita de Marine Le Pen; do outro os que apoiam a candidata do “Reagrupamento Nacional” contra a opressão burguesa e do capital que compõem o esqueleto ideológico sócio-liberal do candidato do movimento “Em Marcha!”. 

O resultado é delicioso e longe de qualquer moralismo ou militância do autor, esquecendo o espectador muitas vezes que está num documentário, tratando-o como ficção, vendo sumariamente como a estruturação de classes em França, de ramificações históricas, realmente determina o que as pessoas, na passagem da adolescência para a idade adulta, se transformam.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
adolescentes-como-a-estrutura-de-classes-define-o-que-nos-tornamosDeliciosa observação ao crescimento e construção da personalidade e ideais sociais e políticos de duas adolescentes a caminho da idade adulta