Na gíria do Ski, Slalom está diretamente ligado à “prova descendente e em ziguezague, num trajeto definido por obstáculos artificiais“. Esse termo aplica-se igualmente à vida da adolescente Lyz (Noée Abita), uma menina de quinze anos que representa uma grande promessa na modalidade e que terá de conjugar os desafios dos jovens em transição para a idade adulta, ao mesmo tempo que se propõe a construir, física e mentalmente, para se tornar uma campeã.

Com uma mãe ausente (Muriel Combeau), em Marselha, as amigas próximas interessadas em festas, e uma inveja competitiva por parte de outras jovens que estudam e treinam consigo, Lyz encontra-se entregue a si mesmo, solitária  e meio perdida no que toca a relacionamentos humanos, tendo de lidar com os treinos e pressões violentas impostas pelo seu treinador, mas também com as investidas deste por territórios da sua sexualidade, movidas por um corpo em transformação.

E por falar em maturidade, temos de falar de Charlène Favier, a realizadora, aqui na sua primeira longa-metragem, que parte de uma história que inicialmente não consegue fugir aos lugares comuns, mas que aos poucos se solta através de um trabalho esteticamente carregado de contrastes (num registo de vermelhos e azuis) que se estendem igualmente à narrativa e personagens em profunda convulsão e confronto.

Seria fácil, em tempos em que muitos escândalos de relacionamentos e abusos sexuais entre tutores, treinadores e atletas jovens, ganharam visibilidade nos média (os casos Gilles Beye em França e Lawrence Gerard Nassar nos EUA), cair num filme exploratório que entre atos criminosos uma história coming-of-age mostrasse uma jornada de tortura e traumas, mas a verdade é que socorrendo-se de uma assombrosa e madura Noée Abita, Favier consegue ultrapassar obstáculos que normalmente derrubam os cineastas novatos no marasmo de contemplações e reflexões ocas, ou, ao invés, nos mais óbvios clichês tablóides.

O mesmo se pode dizer da personagem de Lyz, que à medida que vai preparando o seu corpo para os desafios da modalidade, vai transformando o seu corpo para o de uma jovem mulher prestes a se tornar objeto de desejo sexual vindo dos adultos. Mas no processo, a sua mente vai também mais calejada emocionalmente, tornando-a capaz de lidar melhor com os problemas familiares, com a dureza competitiva que é incapaz de produzir verdadeiras amizades, e contra um predador que de forma manipuladora vai jogando entre o ataque às suas vulnerabilidades e elogios reconfortantes, de forma a ganhar uma cada vez maior proximidade, influência e poder sobre si.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
slalom-os-ziguezagues-da-adolescencia-a-caminho-da-idade-adultaUm forte início de carreira para Charlène Favier e Noée Abita, dois nomes que certamente vão dar muito que falar no futuro.