Se o inesquecível de Forrest Gump (Tom Hanks) conta-nos no filme de Robert Zemeckis um pouco da sua vida, passando, no processo, por alguns dos marcos históricos mais importantes dos EUA no século XX, o protagonista deste “The Year Before the War”, um anarquista letão chamado Peter, mas que sistematicamente diz-nos chamar-se Hans, vai cruzar-se com inúmeras figuras que nos remetem para personagens da história europeia, no ano que antecede a 1ª Guerra Mundial (1913), numa viagem entre Riga, Praga, Londres, Paris, Viena e o Monte Verità na Suíça, 

É na capital da Letónia que começa este “The Year Before the War”, filme que a partir dos “factos” leva-nos numa jornada sempre caricatural por uma Europa efervescente em ideologias complexas e contraditórias (comunismo, protofascismo, anarquia, etc) que irão, no futuro, despoletar diversos conflitos bélicos no século XX, a começar pela  1ª Grande Guerra Mundial.

É à porta de um hotel que conhecemos Peter, momentos antes de ser demitido por alegadamente compactuar num atentado. Mal dá por si está num vagão a iniciar a sua jornada excêntrica, onde chega a envolver-se com uma espécie de Mata-Hari (Inga Siliņa), ser objeto de terapia de um homem que podia ser Sigmund Freud (Ģirts Ķesteris), e interagir com figuras inspiradas em Wittgenstein, Lenin, Trotsky e até Proust. A própria personagem de Peter, doppelganger de Hans em perfeita luta identitária, foi construída pelo realizador a partir de elementos biográficos fornecidos por várias figuras históricas, incluindo o terrorista Peter Piaktow, ou Pedro Pintor, como ficou conhecido na região do West End Londrino.  

Com um preto e branco chiaroscuro que nos congela o olhar desde os primeiros instantes em que alguém se atira inesperadamente para a água num lago gelado, sendo seguido de um travelling absolutamente delicioso, Dāvis Sīmanis constrói o seu filme num registo de absurdo, mas sempre de forma poética e irónica, para, não apenas através do visual, mas também no texto e som, traçar ele mesmo um olhar leviano e sarcástico de uma era.

Na verdade, a poesia que o autor costuma carregar os seus documentários, e o seu trabalho também de professor de História do Cinema e teórico, encontra neste “The Year Before the War” um verdadeiro espelho, mostrando que é possível e expectável contrariar a ditadura dos factos históricos e do realismo normalmente associado, continuando assim a experimentar novas formas de envolver o espectador na gramática do cinema.

E nisto, talvez a melhor forma de definir este  “The Year Before the War” seja o de registo de fantasia histórica, onde propositadamente o realizador deixa para o espectador a tarefa de separar as hipérboles fílimas dos factos históricos.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
the-year-before-the-war-fantasia-historica-as-vesperas-da-1a-guerra-mundialFantasia histórica onde propositadamente o realizador deixa para o espectador a tarefa de separar as hipérboles fílimas dos factos históricos.