A protagonista deste “Mayday” não se chama Alice, nem entra na toca do coelho, mas quando enfia a sua cabeça no forno de um fogão, após ser destratada de forma absolutamente agressiva pelo patrão, vai parar a uma nova realidade, um novo mundo à beira mar plantado onde é recebida por uma guerreira que, conjuntamente com outras, luta uma guerra sem fim contra o patriarcado.
A primeira longa-metragem de Karen Cinorre aborda diretamente a questão da opressão milenar que as mulheres sofrem na mão de sistemas essencialmente liderados por homens que as condicionam, mas no meio da sua alegoria feminista, que parece também nos querer dizer que a tentação de cair na misandria é grande, a cineasta perde-se em sequências que não funcionam por inteiro, como uma completamente ridícula em que a protagonista, Ana (Grace Van Patten a fazer-nos lembrar sistematicamente Shailene Woodley), no meio de uma carnificina, executa um número musical.
Existe alguma criatividade neste “Mayday”, que transforma este grupo de mulheres guerreiras em terreno onírico numa espécie moderna das sereias da Mitologia Grega, capazes de atrair e encantar qualquer um que ouvisse o seu canto. Aqui o encantamento são as as palavras desesperadas e pedidos de ajuda via rádio a uma série de homens em várias guerras que captam na frequência, atraindo-os ao local. E se as sereias atraíam os marinheiros, que ao aproximarem-se muito descuidam-se e naufragavam, aqui o propósito é o mesmo: atrair homens para a morte. Aliado a isto está ainda a capacidade de Ana para o tiro, sendo transformada numa sniper pelo grupo, matando homens indiscriminadamente até que questões morais e um afastamento ideológico da cegueira generalizada da luta em causa a vai colocar em conflito com a sua líder.
Tudo isto produz um certo encantamento em nós, como um “Sucker Punch” realmente sem o “male gaze”, ou seja, sem toda aquela camada de objetificação do corpo que muito recusam admitir existir e a mensagem girl-power como slogan para pancadaria e belicismo que mais parece fantasia criada para adolescentes se excitarem .
O problema aqui é que tudo parece desconectado, desritmado, com Cinorre a conseguir executar sequências de grande qualidade e outras demasiado fracas, como se de uma encenação de teatro mal ensaiada se tratasse. Por isso, “Mayday” sente-se sempre como um conjunto de peças soltas concretizadas irregularmente que no final, montadas, nunca conseguem gerar um objeto único verdadeiramente sólido.



















