Uma mulher salva uma lagosta num restaurante em pleno Tibete e decide embarcar numa road trip a uma ilha onde planeia devolver o animal ao mar. Não, não estamos naquele “challenge”da internet onde temos de explicar a história de um filme. A descrição acima é reduzida, sim, mas essencialmente mostra as linhas com que se cose este ovni narrativo e bomba estética, capaz de vos explodir na cara e perseguir durante dias com todas as suas camadas absurdas por decifrar.
Na verdade estamos numa variante alucinada e alucinante do mito de Orfeu, mas até nisso a realizadora Queena Li, aqui na sua primeira longa-metragem, esconde o jogo e só ao longo do seu filme vai desconstruindo um puzzle traumático marcado pela perda que levou esta jovem sem destino até Lhasa, onde diz a todos estar em peregrinação.
O preto e branco carregado e dominante que nos acompanha nesta viagem excêntrica de quase duas horas é ocasionalmente rasgado por fluxos de cor extremas de alto contraste que dão a toda esta fita um semblante de fantasia moderna episódica por trilhos e rotas entre o real e o onírico. Esse influxo de cor, de traços psicadélicos, tem a sua primeira aparição quando a mulher (interpretada pela cantora Leah Dou), no restaurante de um hotel de luxo da capital tibetana, vislumbra a lagosta num tanque, sendo informada que o animal é sagrado e que só encontraria a paz e prosperidade à luz do farol da Ilha Ming, que alguns até dizem nem existir.
Sem destino aparente ou razão específica para estar onde está, a nossa pop star desencantada entra assim num sentido de missão, carregando a lagosta num carro entretanto comprado e conduzindo estrada a fora por uma China onde o moderno e o tradicional vão aparecendo na forma de personagens tão absurdas como memoráveis, como um vendedor de perucas, um cavaleiro norte-americano e até um pequeno rapaz que debita conceitos budista. Sim, surrealidade e absurdismo não faltam neste filme que, tal como a maioria dos road movies, vale mais pela jornada que pela sua conclusão.
Memórias, sonhos, pesadelos e realidades, sem sabermos muito bem onde eles se aplicam e encaixam efetivamente na história, cruzam-se assim neste “Bipolar”, filme cujo título deve ser levado em consideração por todos os que procuram convenções, lugares comuns e zonas de conforto neste conto sobre o encontrar na salvação de um crustáceo uma forma de lidar e ultrapassar uma dor interna que nos aflige, mas não sabemos bem porquê.


















