Sem qualquer cena gráfica explícita, este tríptico de histórias eróticas unidas por uma personagem revela ser um objeto tão estranho como confiante e razoavelmente conseguido, ao mostrar que as fantasias e repressões andam de mão nos apetites sexuais.
E por apetites sexuais entenda-se o gatilho ou o (re)acender de um rastilho que culmina em explosões de eroticismo nas suas mais variadas formas, mas que aqui estão condicionadas a um ato concreto: o de comer. Três pratos (Natto; Mapo Tofu; Ramen), três apetites sexuais.
Yoshida Kota começa esta sua obra com a história de um homem em plena confrontação com aquele que crê ser o amante da sua esposa, uma enfermeira. Este amante, personagem que vai surgir nos dois segmentos posteriores, não só admite ser amante da mulher, como conta todo o processo, que começou com um problema cardíaco e uma intervenção da enfermeira na colocação de um dispositivo via uretra.
Ora, quem já teve de fazer qualquer tipo de introdução de dispositivos na uretra, sabe que de erótico não tem nada, mas tal como num “Crash” de Cronenberg, onde acidentes e cicatrizes são pólvora para desejos eróticos camuflados e reprimidos, essa operação médica levou ao início de uma alegada relação entre paciente e enfermeira. É entre a estupefação pela traição, mas também o soltar de uma excitação que desconhecia, qual “cockhold”, qual quê, que o nosso marido vai voltar a despertar sexualmente, agindo os alimentos e a forma como são comidos pela sua esposa, que acaba de chegar e não sabe nada do visitante, despertam no marido uma nova vida, e consequentemente, imaginamos, no casa.
Nas histórias que seguem – uma envolve um atropelo e uma visita a um restaurante- o processo é o mesmo, com Yoshida Kota a usar o ilustre desconhecido que se intromete em casais, e que funciona como uma (re)ignição para relações adormecidas e um quebrar de uma sexualidade domesticada, no meio da monotonia da vida e trabalho. Este conceito não é muito diferente daquele estranho que invade a vida de uma família em “Visitor Q” de Takeshi Miike, obrigando-os a reformular todo o seu relacionamento. Na verdade, o mesmo acontece aqui, mas orientado para desejos secretos que se vão revelando, personificados através das reacções aos três pratos descritos acima.
No final, e sempre seguindo uma linhagem realista com uns toques apimentados na forma como apresenta sensualmente o lado afrodisíaco dos alimentos e do ato de os comer, o realizador traça um pequeno retrato que expõe que da fúria e repulsa até à excitação está muito menos distância do que à partida admitimos.


















