O universo de William Shakespeare é transferido para um futuro distópico de uma cidade que parece saída de “Black Mirror”, nesta comédia romântica taiwanesa hiper-colorida e hiper-estilizada com a assinatura de Chen Hung-i e Muni Wei.

Pegando na peça homónima e na era de Shakespeare, quando as mulheres estavam proibidas de subir ao palco e todos os papéis eram interpretados por homens, a dupla de realizadores leva o espectador, por entre amostras de cinema, animação, videojogos e muita cultura pop, pelo nascer da história de amor entre Rosalind e Orlando, assistente de uma vidente disfarçada de homem. 

Aliás, pelo palco cinemático deste show off taiwanês ambientado em Taipei apenas caminham mulheres, uma decisão curiosa, mas não surpreendente, já que Muni fundou o Shakespeare’s Wild Sisters Group, uma companhia de teatro de vanguarda que deve o seu nome à irmã fictícia de Shakespeare, Judith, personagem do ensaio de Virginia Woolf, “A Room of One’s Own”, que se baseava  numa série de palestras que a autora deu em outubro de 1928 e que circulavam em torno do libertar as mulheres da opressão da sociedade patriarcal. 

Os dois, ou antes, as duas  – Rosalind e Orlando – vão ver, juntamente com outros casais, a sua relação florescer por entre encontros e desencontros fortuitos num bairro “livre de wi-fi“, onde o modo de vida antigo (arcaíco) é preservado como um elemento entre o kitsch e o gourmet destinado a separar o local da maior presença de tecnologia noutros espaços da cidade.

Taipei e o design interior e exterior de todos os seus espaços são carregados de uma energia, luz e cor que não se cansa de transformar tudo isto numa peça interpretada numa verdadeira casa de bonecas, ou num cartoon animé, ou num videojogo infantil, onde não falta ainda a música e muitos outros elementos adocicados ultra pop (como sequências animadas 2D adicionadas a imagens reais), capazes de provocar tonturas e sentimentos de privação para almas mais sombrias que não vão à bola – de todo – com as comédias românticas extremamente lamechas e derivativas.

A verdade é que quase tudo por aqui é hiperbolizado, mas curiosamente as relações e sentimentos continuam tão conservadores e retrógrados na construção de dependências e conceitos monogâmicos como o eram nos tempos do poeta, dramaturgo e ator inglês. Houve sim uma evolução de pensamento, na forma como se observam os relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo (referência clara à legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo em Taiwan em 17 de maio de 2019), mas tomara que a irreverência visual que constantemente brinca e experimenta mexer com a própria definição de linguagem do cinema, e esse olhar diverso pelos géneros longe da catalogação social, passasse igualmente para os conceitos de amor e união, que felizmente também mudaram ao longo dos tempos, mas que aqui permanecem incólumes à renovação.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
as-we-like-it-comedia-romantica-taiwanesa-oferece-doses-fartas-de-sacarinaQuase tudo por aqui é hiperbolizado, mas curiosamente as relações e sentimentos continuam retrógrados e conservadores na construção de dependências e conceitos monogâmicos de relacionamento como o eram nos tempos de Shakespeare