Mais de 130 anos depois de Bram Stoker lançar as aventuras de “Drácula” na literatura, e de meios como cinema, tv, banda-desenhada e videojogos servirem de espaço para o universo dos vampiros proliferar nas suas mais variadas formas e feitios, o holandês radicado em Taiwan, David Verbeek, ensaia uma nova entrada nesse mundo com um filme tão carregado de crítica social como de uma carga estética que transpira opulência, requinte e opacidade, como as personagens em foco por aqui.
O foco de “Dead & Beautiful” é um grupo de 5 amigos bilionários, todos eles herdeiros de legados familiares repletos de privilégio, fartura e extravagância. Logo na primeira cena, passeando com a sua bomba automóvel por uma cidade marcada pelas luzes dos afortunados, duas jovens que pertencem a esse G5 são obrigadas a travar a fundo para não atropelar uma mulher empobrecida que atravessa uma passadeira numa cidade despida de vida. Elas travam a tempo, dão mostras de alguma sanidade moral e consciência de classe, ultrapassando a situação com requinte, ficando assim prontas para irem ter com os restantes amigos que organizam uma festa surpresa.

Verbeek expõe o mundo em que estes homens e mulheres vivem através dos locais que frequentam, os carros e edifícios que têm ou visitam, a roupa e acessórios que usam e até os conflitos birrentos que protagonizam quando um outro grupo partilha com eles a mesma locação onde celebram a sua abastada riqueza (quantificada ainda pelo realizador com números específicos das suas fortunas estimadas, como o clipe abaixo demonstra.)
Toda essa vida plastificada de aparências, onde as coisas que possuímos mostram quem somos, é curiosamente secada por um vazio espiritual típico de quem consegue tudo o que quer pagando mais ou menos. È por isso que quando numa viagem a um local do interior para uma cura espiritual, as coisas correm mal e eles ganham dentes caninos que os colocam aparentemente na posição de vampiros.
A partir deste instante Verbeek coloca em cena a questão: que seria se os ricos – que já usufruem de um estatuto especial de decisão nas sociedades – concentrassem novos poderes de cariz sobrenatural? Seria isso suficiente para preencher as suas vida excelsas em coisas, mas esvaziadas em sentimentos, desafios e empatia?
O resultado que o cineasta consegue nessa sua busca interna de cariz existencial não é o melhor, particularmente pelo facto de no final apresentar uma reviravolta que não deixa ninguém surpreso, mas ainda assim e pelo caminho – especialmente na vertente cénica da construção do mundo onde estes seres caminham – existem alguns bons momentos e uma dinâmica relacional que gerará conflitos internos, também eles movidos por um triângulo amoroso que eclode. Esse acrescento, razoavelmente bem transcrito para o grande ecrã, bem como o passado posto a descoberto de uma das mulheres do grupo, acrescentam algumas camadas extra de interesse ao filme, mas não o suficiente para ele continuar a parecer mais interessante do ponto de vista concetual que no resultado efetivamente conseguido.
Ainda assim, Verbeek mostra ser um cineasta esteticamente bem resolvido, restando agora aprimorar a força dos seus guiões e o seu trabalho na direção de atores.


















