A história do curandeiro, líder messiânico e revolucionário da República Dominicana Papá Liborio (1876-1922), nascido Olivorio Mateo Ledesma, foi adaptada ao cinema nesta primeira longa-metragem de Nino Martínez Sosa, que entre o místico e o real, o espiritual e a luta pela independência, colecciona pedaços da história do seu país e do nascimento de um culto, em mais um exemplo de cinema que procura contribuir para o diálogo urgente do descolonizar a mente, invadindo o coração da autodeterminação política e religiosa.
E o filme começa com toda a transcendência do mito, com Libório a desaparecer durante um furacão, aparecendo 7 dias depois meditando na sua aldeia. Começou aqui a idolatria à sua figura, a qual absorve uma tripla missão perante as suas gentes. De um lado temos o curandeiro, do outro o profeta (que foi ao céu e veio), e finalmente o guerrilheiro que se vê confrontado e sufocado pelos invasores estrangeiros, que estrangulam qualquer forma de subsistência do seu povo, afastando-o dos terrenos férteis e de acesso às cidades.
Nino Martínez Sosa segue uma linearidade narrativa, recorrendo a uma estrutura de 7 capítulos, mantendo sempre uma imprevisibilidade, para mostrar ao espectador a criação de um pedaço de história coletiva. E fá-lo navegando através de uma história individual, num processo entre um realismo cru, de quem conta as barbaridades da guerra e o sofrimento de um povo, mas igualmente aplica uma camada filosófica (Liborio foi um precursor da Teologia da Libertação) e espiritual de influências cristãs, de culto à Santíssima Trindade, com particularidades regionais do folclore local.
Há também uma amostra do Liborio como o homem terreno, com família, mas envolvido numa missão bem maior que ele mesmo, e que produziu até hoje seguidores às suas ideias, na forma do “Liborismo”. E é nisto que Nino Martínez Sosa dá mais força ao seu filme, porque ao invés de olhar para o próprio umbigo do messias, carismáticamente interpretado por Vicente Santos, foca a sua lente no movimento religioso criado, através dos olhos dos fiéis, que com ele transitam nestes tempos duros, onde acabam por assistir ao seu sacrifício.



















