É quase impossível não nos lembrarmos de “Meu Querido Mês de Agosto”, de Miguel Gomes, e até “Mektoub, My Love: Canto Uno” de Abdellatif Kechiche, ao assistir a este “I Comete”, estreia na realização do ator e encenador Pascal Tagnati.

Seguindo as atividades quotidianas de uma vila da Córsega num verão, onde não faltam as festas típicas da estação, os namoricos, amizades mas também os desaguisados, o realizador entrega um objeto vivo e repleto de humanidade. Num misto de atores profissionais e amadores, que contribuíram para o texto com alguns diálogos, quem mora na cidade encontra quem nunca saiu da aldeia.

Tagnati aborda inúmeros temas, que vão desde os mais corriqueiros ensaios sobre o sexo oral, a monogamia, engates e futebol, até assuntos mais sérios como a demência, a fertilidade, o bullying, a independência, liberdade e soberania. Existe ainda destaque para um ex-condenado, para o único negro do local, e para uma Sugar Baby virtual que vai acumulando tokens tendo como pano de fundo a beleza natural da região.Os diálogos sentem-se sempre soltos, orgânicos, mesmo quando – no auge dos conflitos – um homem é ameaçado de extinção do seu negócio e da morte dos “seus” animais, ou uma antiga professora idosa dá sinais de perder as capacidades mentais. 

Pascal Tagnati filma tudo em planos estáticos, longos, maioritariamente de conjunto, mantendo uma certa distância dos objetos filmados, que não se coíbem de por vezes entrar no dialecto local, ou então dançá-lo. A câmara posiciona-se muitas vezes a larga distância da ação, colocando normalmente a personagem focada no centro de algo maior que o rodeia: a própria vila e a paisagem, também ela indissociável de tudo isto. Exemplo disso é uma cena de pancadaria entre dois amigos porque um deles se meteu com a irmã do outro no “bailarico” da noite anterior, ou um par de crianças que dialogam umas com as outras revelando já uma hierarquia estabelecida e atos de crueldade normalizada. E também há cenas que entram na exposição sexual gráfica, mas sempre em registos individualizados.

No final das contas, de que trata este filme? De tudo, mas também do nada, neste local preso entre o tradicional e o moderno, sempre com questões identitárias no subtexto. E entre esses dois mundos e transições, a vida acontece e é digna de se registar…

(crítica originalmente escrita em março 2021)

Pontuação Geral
Jorge Pereira
i-comete-a-vida-acontecePascal Tagnati segue as atividades quotidianas dos habitantes de uma vila da Córsega num registo energético de ficção com o seu quê de documental e até etnográfico