Quando questionado sobre quantas cineasta japonesas consegue cita, o espectador comum de cinema – na melhor das hipóteses – aponta uma, Naomi Kawase, mas já há uns anos que outro nome tem feito carreira no universo dos festivais de cinema: Sode Yukiko. A realizadora de “Good Stripes que apresentou agora em Roterdão, na Big Screen Competition, a sua terceira longa-metragem: Aristocrats.

Baseando-se num romance de Mariko Yamauchi, “Aristocrats” tem na sua narrativa e forma cinemática um jeito antiquado de contar a história de duas mulheres, de origens e classes diferentes, que procuram o amor, numa sociedade japonesa presa entre a transição e uma modernidade que exaspera por um novo estatuto, longe dos estereótipos, das mulheres na sociedade. Pensamentos arcaicos e emancipadores colidem assim num filme que vagueia entre o drama e o romance, num embate – longe do conflito – de duas mulheres pela atenção de um homem, e de uma sociedade presa aos antigos chavões definidores de hierarquia, que vão desde a idade até à riqueza e poder.

De um lado temos Hanako, cuja família rica e tradicional pretende arranjar-lhe um novo noivo depois desta ser abandonada pelo atual namorado. Em sentido inverso, temos Miki, que conhece há largos anos o objeto de desejo das duas, mas que sempre foi categorizada pela sociedade como uma rebelde, que não responde – como deveria – ao chamamento patriarcal.

As mulheres estão aqui para “circularem” ao serviço dos homens, dá ela a entender a certo momento, refletindo em todas as suas passagens sobre a condição do homem, capaz de escapar à crítica quando contraria a tradição monogâmica das relações, e a uma Tóquio que particularmente fomenta o confronto entre as mulheres pela pressão constante em encontrarem um companheiro.

No seu todo, é um filme bem contido, introspectivo, mas que igualmente levanta a voz sobre a condição feminina sem nunca cair na verdadeira irreverência. E talvez aí resida o maior problema de Yukiko, que apesar de encontrar nas palavras e ações narrativas boas formas de expressar as suas preocupações sobre como as mulheres ainda são vistas na sociedade nipónica, não materializa essa mesma angústia na sua forma cinematográfica de apresentar tudo, mostrando-se muito dependente dos alicerces construídos pelos seus pares homens ao longo da história do cinema japonês. 

De qualquer das formas, “Aristocrats” revela-se um projeto interessante porque efetivamente junta a sua voz a outras globalmente que confrontam os mesmos problemas e entraves à modernização dos papéis destinados a cada um na sociedade.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
aristocrats-as-mulheres-e-o-circular-para-homem-ver-e-agirApesar de encontrar nas palavras e ações narrativas boas formas de expressar as suas preocupações sobre como as mulheres ainda são vistas na sociedade nipónica, Sode Yukiko não materializa essa angústia na sua forma cinematográfica muito tradicional e antiquada