O futebol é um universo duro, de extrema competição e aprendizagem, que cada vez mais cedo procura eventuais craques que possam ajudar os clubes a delinear estratégias desportivas, nas quais nunca escapa um retorno financeiro (as academias não se pagam sozinhas). Não é à toa que o primeiro escalão competitivo oficial é o dos Petizes, com miúdos com menos de 7 anos a serem treinados e ensinados a entrar no mundo da competição, e a terem de lidar com a concorrência (só podem jogar 11). Por isso mesmo, quando um jogador encerra a carreira e se reforma, imagine-se aos 36 anos, ele já leva em muitos casos cerca de 30 anos de aprendizagem, muito esforço e uma  longa construção, física e psicológica.

Tigers, filme sueco do realizador Ronnie Sandahl, acompanha este mundo, inspirando-se na história verídica de Martin Bengtsson para criar uma análise à psique da construção de craques, os problemas de saúde mental que podem ser colocados a descoberto, e as grandes dificuldades na transição para as camadas mais adultas, vulgarmente conhecidas como equipas A. 

Bengtsson era o novo “Wayne Rooney”, dizia-se em 2003, quando foi adquirido com 17 anos ao Örebro SK pelo Inter de Milão. A sua transição para o clube onde jogavam estrelas como Kily González, Adriano e Christian Vieri foi pacífica, monetariamente relevante (havia concorrência do Ajax, onde jogava Zlatan Ibrahimović, e do Chelsea), começando – naturalmente – nas camadas jovens, onde imediatamente sentiu uma enorme pressão, competição e antipatia por parte dos colegas, pois este era o escalão imediatamente antes de entrar na equipa principal. Em muitos casos, este é o derradeiro passo para a glória, ou então o fim antecipado de um sonho iniciado 10 ou mais anos antes, com vários sacrifícios pelo caminho.

A história do internacional sueco S17 deu um livro, “I skuggan av San Siro” (Na sombra do San Siro), que agora Ronnie Sandahl adapta ao cinema dando uma forma mais intemporal e livre, embora os grandes pontos da vida do jogador estejam lá: a sua entrada no clube italiano, a difícil adaptação, a sensação de prisão na Academia Nerrazuri, a depressão, uma tentativa de suicídio e a sua saída e abandono do futebol aos 19 anos.

Sandahl, que em 2017 também entregou no cinema uma obra com o desporto em foco, nesse caso o ténis, no bem conseguido e repleto de tensão “Borg vs. McEnroe”, acerta no tom deste seu “Tigers”, tendo em Erik Enge no papel principal uma força de interpretação principalmente focada na expressividade, no culto do corpo, ultra trabalhado, e no seu olhar, algures próximo da confusão, até porque a barreira linguística não ajuda. Ora no caso de Bengtsson, o cineasta explora eficazmente a erosão do sonho e o nascimento de um pesadelo, ainda num período de formação de carácter, onde qualquer um pode perceber que afinal a vida exigente do mundo futebol não é feita para si, mas insiste-se nela por todos os sacrifícios que se fizeram no percurso.

Tiger” capta isso, com um toque de romance cancelado pela dedicação ao futebol, soltando ainda, aqui e ali, várias artimanhas do universo mercantilista deste mundo de negócios onde muitas vezes o jogador é visto como uma carga, um ativo rentável. E mostra tudo isto enquanto viaja pela vida de um rapaz sem a maturidade suficiente para decidir corretamente o que quer aos 17 anos, apanhado no universo da construção de protagonismo, onde o culto dos carros, das festas e as paixonetas nas discotecas – clichés inevitáveis de se fugir- estão em todo o lado. Na verdade, estes jogadores profissionais estão efetivamente inseridos num círculo de fanfarra, exposição de riqueza e visibilidade, até como afirmação pessoal da sua própria masculinidade como forma de marketing para tirar dividendos da venda dos seus direitos de imagem.

Sem artifícios técnicos e cinemáticas por aí além, ainda que as cenas de futebol sejam mais reais que normalmente o são no cinema e tv, muito por culpa da proximidade da câmara aos jogadores (não existem  planos de conjunto ou wide shots nas sequências de futebol), “Tigers” é assim um objeto longe de qualquer brilhantismo, mas tem um dom que raramente se vê nos filmes sobre este deporto, o que o torna um objeto de interesse: em vez de seguir o tradicional arco de narrativo de esforço e dedicação que leva à glória, o filme foca-se no custo considerável dessa busca pela excelência e o que se perde pelo caminho. 

Isto não é um jogo, é uma audição”, diz um dos poucos amigos de Bengtsson no seu jogo de estreia. É a partir desta frase que todos os dias os miúdos se concentram (ou desconcentram), sendo o fracasso visto como algo pior que a própria morte. E ao entrar nessa pressão e competição constante e tóxica, Sandhel mostra um pouco da psique e a vulnerabilidade desses miúdos, que muitas vezes encontram na dedicação cega a forma perfeita de se tornarem física e mentalmente mais fortes (veja-se Cristiano Ronaldo), mas outras vezes quebram psicologicamente, especialmente quando estão longe da família, amigos e sem hipótese de terem uma vida além futebol.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
tigers-o-calvario-de-martin-bengtsson-chega-ao-cinemaSem artifícios técnicos e cinemáticas por aí além, Tigers” afasta-se do tradicional arco de narrativo de esforço e dedicação que leva à glória, focando-se mais no custo considerável dessa busca pela excelência e o que se perde pelo caminho.