Já passaram quase vinte anos desde que Anders Thomas Jensen nos presenteou com “Carne Fresca, procura-se“, filme onde uma dupla de talhantes faz sucesso quando começa a vender carne humana aos seus clientes. Comédia de tons bem negros – com contornos macabros – o filme teve relativo sucesso internacional, vencendo mesmo em Portugal três prémios na Semana dos Realizadores do Fantasporto, e sendo distribuído comercialmente pela extinta e saudosa New Age Entertainment (que nessa era nos presenteou com filmes que se transformaram em clássicos, como “Donnie Darko“, “Cidade de Deus” e “Oldboy“.
“Carne Fresca, procura-se” ajudou também o mundo a conhecer melhor aquele que é atualmente o ator dinamarquês mais famoso do mundo, Mads Mikkelsen, que neste filme teve a sua segunda colaboração com Anders Thomas Jensen, após apadrinhar a sua estreia nas longas-metragens a solo com “Flickering Lights”.
Anders prosseguiu a sua colaboração com Mikkelsen até hoje, atuando igualmente noutras sagas de proscritos sociais como “As maçãs de Adam” e “Men & Chicken”. Cinco anos depois deste último filme, Anders e Mads voltam a encontrar-se em “Riders of Justice”, um filme que mais uma vez segue uma linha sombria para abordar o tema daqueles que não se enquadram nos padrões sociais, sofrem uma ostracização e fecham-se neles mesmos, caindo na ditadura cega dos números porque estes – ao contrário dos humanos – nunca falham.
“Riders of Justice” é isso, um filme sobre uma sociedade obcecada em responder por números, estatísticas e probabilidades, tudo aplicado pelos tais proscritos que por aqui, direta ou indiretamente, estão todos ligados a uma tragédia.
O centro é Markus (Mads Mikkelsen), um soldado forçado a regressar a casa depois da sua esposa morrer numa trágica explosão numa carruagem do metro. Este evento parece obra do acaso, mas quando Otto (Nikolaj Lie Kaas), um matemático que estava no comboio, acredita que tudo se tratou de uma orquestração, em que a mulher do militar foi um mero dano colateral, as coisas ganham contornos alucinantes de suspense, mistério e humor bem negro.
Otto crê que os números não mentem e que a probabilidade de uma testemunha importante de um caso judicial, que envolve um grupo criminoso motards conhecidos como Riders of Justice, estar naquela carruagem é de 1 para centenas de milhões. Para ele, este número é uma anomalia, a que se somam outras situações improváveis, como um homem que estava também no metro ter, momentos antes de abandonar o vagão, deitado fora uma sandes e um sumo que custava no mínimo uns 16 euros, tudo sem praticamente os saborear.
A Otto, nesta sua análise aos números e improbabilidades, juntam-se ainda Emmenthaler (Nicolas Bro) e Lennart (Lars Brygmann), dois génios da matemática e informática, também eles com graves disfunções sociais. A missão deles é convencer Markus – um homem emocionalmente marcado pela ausência de empatia- de que realmente tudo se tratou de um incidente e não do acidente oficialmente designado. Pelo meio, vamos ainda encontrar a filha de Markus, que também estava no metro quando a mãe faleceu, e que agora terá de viver com o pai com quem não tem qualquer relação ou ligação além dos laços sanguíneos.
Acima de tudo, no meio do seu embrulho de filme de comédia de ação com um toque familiar, “Riders of Justice” retrata uma busca incessante e até obcecada por encontrar a causa e consequência das coisas, de dar sentido a algo sem sentido como a morte, procurando em si mesmo contrariar qualquer noção de destino e inevitabilidade, lutando assim contra a própria mortalidade.
A análise de traumas internos e da manifestação dos mesmos através de diferentes formas, seja pela exposição escancarada da dor, seja através da omissão aos outros dos sentimentos e demónios internos, é também tocado pelo cineasta, que executa um filme carregado de uma linguagem de cinema para as massas, mas que não transforma isso num exercício descerebrado com o entretenimento passageiro como fim. Um belo começo para o festival de Roterdão.


















