Num dos primeiros diálogos de “Gritt”, a protagonista homónima fala com uma colega sobre um projeto artístico que tem na mente desenvolver: um ritual performativo chamado “The Great White Inflamation”, que envolve toda uma cidade, onde, tal como em “Orlando”, o ator entra no corpo da personagem, mas sai dela, reconstruíndo-a longe dos estereótipos. A colega que está com ela, também tem um projeto artístico em mente: um musical sobre mineiros de Svalbard. Nessa apresentação do projeto, que se cruza entre o metafilme e uma mensagem política que analisa temas como a diversidade e estereótipos, Gritt alerta a amiga: cuidado com essa construção já que a linha que separa a obra de arte com mensagem política, da centrada no ego do autor, a olhar para o seu próprio umbigo, é ténue.

Este aviso por aqui não é inocente, até porque na sequência imediatamente a seguir o foco é Gritt e as ruas de uma cidade/metrópole que abraçou em todo o seu esplendor o pensamento New Age, da busca de um amor e luz que antecede uma nova era de transformação e cura interior. 

O quanto da própria Gritt existe na realizadora deste filme, Itonje Søimer Guttormsen, é uma questão própria de lhe fazer, mas é óbvio que também ela, ao seguir esta trintona que quer deslocar a cura interior pessoal para uma cura social alargada, destruindo pelo caminho o capitalismo e o patriarcado, facilmente entra no dilema inicial: até que ponto uma obra é auto-centrada no autor ou efetivamente tem um conteúdo político que provoque reflexão/ação, destruição/reconstrução. 

A atriz Birgitte Larsen não é nova nestas questões colocadas por Itonje Søimer Guttormsen, que tem uma perspetiva “Lilithistic” (referência a Lilith – primeira mulher de Adão – no Talmude) da arte de filmar. Ambas trabalham juntas desde 2007 em vários projetos artísticos, tendo a personagem de Gritt surgido pela primeira vez em 2017, na curta “Retrett”.

Birgitte Larsen, aqui, assume a pele dessa mulher que regressa a Oslo com um projeto artístico que esbarra nas burocracias, estereótipos de performance e do financiamento da própria arte, atacando claramente a realizadora e argumentista a concessão da arte como um exercício elitista que subsiste no meio das regras sociais e padronizações a que apenas alguns têm acesso. E é nisto que Gritt, Larsen e Itonje, que fundem-se por aqui, quase sem distinção, enviam a mensagem ao público: elas serão sempre a Lilith, que abandonou Adão no paraíso, e não a Eva, que ficou com ele por lá.

Por isso mesmo, o exercício artístico que Gritt quer executar é considerado “radical”, tal como certamente este filme, que Itonje executa constantemente de câmara na mão e com uma montagem e estética por vezes tão confusa como a própria vida de Gritt, presa entre uma nova era de transformação e um velho sistema que a recusa entender, respeitar e integrar.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/ebti
Pontuação Geral
Jorge Pereira
gritt-lilith-a-fugir-do-paraisoItonje filma constantemente de câmara na mão e com uma montagem e estética por vezes tão confusa como a própria vida de Gritt