O rosto é o de um documentário, mas o trabalho melancólico carimbado por uma viagem à sua infância, que se funde com as moléculas da pandemia que vivemos, e que retirou turistas a Veneza, chegam diretamente ao espectador na forma de um ensaio existencialista, neste novo trabalho do italiano Andrea Segre.

O realizador, nascido em Dolo, na região veneziana, começa neste “Molecole“, com pouco mais de 70 minutos, por visitar as memórias da sua infância, em particular a sua vivência com o pai, um homem que estudava as moléculas e acreditava na matéria como substância do mundo.

A partir daí, parte em direção a novas moléculas, as do vírus que criou a condição Covid-19, que tantas vidas ceifou, retirando no processo os turistas que se tornaram (quase) construções espaciais e marcas da paisagem. Viajamos então por uma Veneza agora deserta, ainda em março e abril de 2020, sem os habituais eletrões e protões que tanto frenesim, vida e confusão lhe proporcionam, percebendo-se mesmo que a maior ondulação que os habitantes sentiam nas águas nos tempos idos era apenas resultado das embarcações que a toda hora serviam o turismo. 

Veneza, que sempre viveu entre o temor e amor ao mar, pelo medo de desaparecer sob as águas, mas feliz pelas gentes que essas mesmas traziam, está agora nua, mas não sem alma ou “vida”. Isto porque pelo ar vagueiam indiscriminadamente as moléculas de um vírus, esperando pacientemente encontrar as moléculas humanas para uma simbiose que pode ser revelar letal.

Nisto, Segre, sempre num registo de intimidade e poesia, visual e narrativa, faz assim um ensaio sobre o espaço, os afetos e as contradições, tudo num local agora entregue ao silêncio, mas que precisa da gritaria ensurdecedora dos seus visitantes para manter-se à tona.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
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