É com uma sequência filmada a 8mm da verdadeira Tove Jansson (1914–2001) a dançar com que culmina este “Tove”, filme dedicado à finlandesa-sueca que dedicou a sua vida às artes visuais, enquanto atravessou uma vida de paixões e criticismos que moldou a sua personalidade artística.

Criadora dos Moomins, personagens brancas e redondas de contos de fadas com focinhos grandes que fazem lembrar hipopótamos, mas cuja família são trolls, Tove foi um nome ímpar no mundo das artes visuais do universo nórdico e uma figura atípica para a sociedade de meados do século XX. Com uma carreira bem conhecida, especialmente depois das suas tiras de banda-desenhada infantis surgirem em várias publicações jornalísticas internacionais, pouco se sabia da sua vida pessoal, e ainda menos dos momentos logo após a 2ª Guerra Mundial onde, afastada da família, decide ir viver sozinha e criar um atelier para desenvolver o seu trabalho. 

Considerada por muitos como a ovelha negra de uma família boémia, também ela centrada num artista, Tove viveu sempre na sombra do criticismo do pai, o escultor Viktor Jansson (Robert Enckell), com quem mantém uma relação afastada. Espírito livre, fora de quaisquer amarras políticas ou movimentos artístico, esta bissexual manteve durante algum tempo uma relação com o jornalista, político e pensador Atos Wirtanen (interpretado por Shanti Roney), caracterizando-o mesmo como o “homem” da sua vida. Por outro lado, encontrou  na diretora teatral Vivica Bandler (interpretada por Krista Kosonen) a “mulher” que a fez descobrir novas sensações: “o dragão irresistível” que a levou daqui para fora, como explica a Wirtanen a determinado momento.

Existem vários rasgos de beleza, liberdade e criatividade nesta longa-metragem assinada pela realizadora Zaida Bergroth, a qual também não escapa por vezes de cair nas convenções, formas e estruturas das biografias cinematográficas quotidianas em torno de artistas à procura de si mesmos, e que acabam trespassando as descobertas internas e tudo o que as rodeia para uma forma de arte. Neste caso, e ao contrário do desejo paternal, Tove não encontrou na pintura a óleo o seu modus operandi, mas antes na forma de desenhos que unem o mundo infantil e adulto.

Uma nota final para a simplicidade do design de produção, do guarda-roupa, e uma fotografia e montagem que nunca transformam este num espetáculo visual espampanante. Ao contrário, “Tove” revela-se um filme esteticamente contido, minado de uma banda-sonora regada ao Jazz de Benny Goodman e Glenn Miller nos momentos de maior euforia, ao tango de Carlos Gardel no processo de criação, e ao sentido som de Edith Piaf (C’est merveilleux) quando o coração aperta e Paris e o amor a chama.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
tove-danca-danca-dancaExistem vários rasgos de beleza, liberdade e criatividade nesta primeira longa-metragem assinada pela realizadora Zaida Bergroth, a qual também não escapa por vezes de cair nas convenções