Neuroses nunca faltam no cinema de Sophie Letourneur, seja numa jornada de busca pelo amor e sexo (e não filmes) no Festival de Locarno [no seu filme Les Coquillettes], seja através de uma mulher incapaz de estar só [Gaby Baby Doll, 2014]. Aqui, e num registo pós #metoo que subverte as marcas habituais das comédias românticas, Letourneur inverte os papéis de género na ambição, obsessão e reação à maternidade
Claire Girard (Marina Foïs sagaz) é uma pianista consagrada que foca-se totalmente na carreira e não tem qualquer desejo de ter filhos. Do outro lado está o seu marido/agente/agenda, Frédéric Girard (Jonathan Cohen hilariante), que começa a sentir cada vez mais intensamente o relógio biológico e prepara uma cilada para a esposa engravidar. A partir dessa gravidez tudo se altera, mas a dinâmica do casal mantém-se nos antípodas. Ela reage secamente a todas as transformações físicas/hormonais, e ele desmancha-se em hilariantes mudanças comportamentais como se fosse quem carregasse no ventre um feto.
Vejam-se dois momentos surreais: um em que uma indiferente Claire observa o seu feto através de uma ecografia [questionando mesmo se aquilo decorria dentro dela ou eram imagens de arquivo); e outro em que Frédéric questiona uma médica se é possível arranjar um mecanismo que transfira o leite materno da mulher para ele, para assim poder ser ele mesmo amamentar.
Sophie Letourneur não consegue suster o interesse do espectador durante toda a duração desta comédia burlesca que propositadamente toca o bizarro, mas consegue entregar momentos de humor de grande vigor e destreza que originam gargalhadas genuínas, e que simultaneamente lançam um outro olhar sobre o papel homem-mulher nas questões da maternidade. A ver.



















