A morte do jornalista saudita Jamal Khashoggi, dentro do consulado da Arábia Saudita em Instambul, a 2 de outubro de 2018, fez as manchetes globais e – temporariamente – centrou a atenção do público para um país que, não só pelo dinheiro, poder e combustíveis fósseis que tem, mas pelo estatuto de aliado militar estratégico dos EUA e de vários países europeus na região do Golfo Pérsico, tem passado ao lado das críticas e sanções do ocidente.

Estreado em Sundance em 2020, “The Dissident” é um documentário de grande investigação jornalística que não só recompõe um crime dentro de um consulado situado num país estrangeiro, como traça um panorama da guerra de informação e desinformação que acontece/u nas redes sociais em torno da figura de Khashoggi, que como outros se revelou um dissidente do regime monarca quase centenário de uma nação que sentiu a extrema necessidade de controlar a informação distribuída aos súbditos, especialmente para evitar qualquer tipo de contágio da chamada Primavera Árabe.

Uma monarquia é pouco propensa à mudança”, disse Khashoggi numa das suas conversas com jornalistas e público bem antes da sua morte, recusando a terminologia de “exilado”, apesar de efetivamente estar próximo disso. Assinado por Bryan Fogel, que anos antes ganhou o Oscar de melhor documentário por “Icarus”, que analisava a cultura do doping na Rússia através da história de um ciclista, “The Dissident” é muito preciso na divulgação de informação, bem estruturado narrativamente, e criteriosamente montado para nos fazer um plano geral de um regime a partir da história pessoal de um homem que afrontava o poder com a sua liberdade de expressão. E em nenhum momento são esquecidas as ligações do regime saudita não só a países como os EUA e a administração Trump, como ao mundo dos negócios, com o nome de Jeff Bezos a vir várias vezes à conversa, não só porque é proprietário do Washington Post, onde Khashoggi trabalhava, mas porque viu o seu smartphone ser vigiado e hackeado para conseguir informação pessoal que poderia (eventualmente) servir para o calar a qualquer. 

Fica também explícita a criação das “Moscas”, máquinas de propaganda do regime saudita que pelas redes sociais criaram dezenas de milhares de contas para passarem mensagens a favor do regime, e a contra resposta de ativistas – outros dissidentes – com um programa similar (“Abelhas“) que viriam a se confrontar no Twitter.

Além disso, conhecemos ainda um pouco do lado pessoal de Khashoggi, os seus amigos e o seu relacionamento com uma mulher mais nova com quem tencionava casar, razão pela qual foi ao Consulado da Arábia Saudita na Turquia naquele fatídico dia onde já não saiu com vida. 

Curiosamente, e mesmo depois do sucesso do filme em Sundance (grande ovação, boas críticas), “The Dissident” não teve uma distribuição global como o realizador pretendia e esperava, tal como o seu anterior “Icarus ” conseguiu (está no catálogo da Netflix). A verdade é que um documentário que mostra que “algo está podre no reino” da Arábia Saudita, um aliado permanente do ocidente, nunca poderia ser tão bem aceite por grandes plataformas como a Netflix e Amazon, não só pelo interesse dessas empresas em se expandir na região, mas por mecanismos transversais derivados do facto do país ter, através de várias empresas, o controle de órgãos da comunicação social (a própria Variety, numa entrevista recente ao realizador, deixa a ressalva que existe uma participação saudita no capital da sua empresa mãe), além de estúdios de cinema, produtores e muitos mais negócios que poderiam colocar em risco o relacionamento financeiro.

No final, “The Dissident” consegue explanar como exercício documental e jornalístico muitos dos factores emaranhados e relações de poder (politico e financeiro) que conduziram à morte do jornalista, sendo assim uma obra audiovisual absolutamente urgente e imperdível.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
the-dissident-entre-moscas-e-abelhas-mas-longe-das-grandes-plataformas-de-streamingUm exercício documental e jornalístico tremendo