Conto metafísico sobre um pianista frustrado e uma alma rebelde, “Soul” tem muitas das marcas dos filmes de Pete Docter (Inside Out), nomeadamente o baralhar referências intelectuais, conceitos filosóficos, muita cultura pop e um toque slapstick entrecortado por piadas terrenas, algumas até cliché (graçolas sobre “Cougars” em 2020?), num jogo de quem forçosamente quer agradar a todos, sejam estes crianças ou adultos.

Vangloria-se a irreverência e ousadia visual, modernista, quando se trata de evocar a vida após a morte, ou a existência antes da própria vida em si, num braço de ferro de inspirações artísticas e filosóficas que no final não esquece uma mensagem de quem anda há décadas a doutrinar.

Primeira longa-metragem da Pixar com um protagonista negro, alma não falta a “Soul” no questionamento do nosso papel no mundo, do sentido da vida, falando-se de paixões, do tempo perdido, dos inúmeros “ses”, e inevitavelmente de dons e obsessões em busca da felicidade. 

O foco é Joe, pianista nova-iorquino que vive para o jazz, mas que ganha a vida como professor de liceu. Após anos de decepções, finalmente conseguiu a hipótese de tocar numa banda, mas no meio das celebrações e muitas distrações vê-se morto e num “além” peculiar, onde acaba por “aterrar” num espaço chamado Grande Antevida.  Neste lugar indescritível, as almas adquirem a sua personalidade, carácter e singularidade antes de serem enviadas para encarnar alguém na Terra. Decidido a retornar, pois afinal de contas faleceu antes de dar o “concerto da sua vida” e concretizar um sonho, Joe une esforços com uma “estranha” alma, a 22, que resistiu a todos os mentores que este espaço lhe concedeu, fossem eles Mohamed Ali, Carl Jung e até a Madre Teresa de Calcutá, no seu processo de aprendizagem e preparação para o “grande salto”.

22 é alguém singular, uma alma que não encontra a “chama” que lhe permite “dar o salto” para uma vida terrena. Nesta aventura, onde as peripécias são muitas e os dois vão-se ver até em corpos alheios, existem ainda ligeiros toques críticos em relação às expectativas maternas, mas no essencial o que cativa e deslumbra por aqui são as escolhas estéticas, particularmente a criatividade estilística na Grande Antevida, que coexiste lado a lado com um deserto navegável de almas perdidas para aqueles que não encontram um propósito para as suas existências.

Viagem também ela musical ao mundo do Jazz e à magia urbana de Nova Iorque, embora estranhamente não seja assim tão memorável por esses caminhos, “Soul” merece uma olhadela cuidada, pois tal & qual uma boneca russa vai despindo as suas camadas mais complexas (que merecem observação, estudo e reflexão) até chegar a outras mais banais e derivativas, sempre unidas em torno de um final forçado a debitar uma “moral para a história”.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
Guilherme F. Alcobia
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