Com um sabor agridoce, derivado da morte de Chadwick Boseman, sendo este o seu último papel, “Ma Rainey’s Black Bottom” chega à plataforma Netflix com todo o poder das histórias pessoais que pelas entrelinhas traçam um retrato de uma América edificada em torno de disparidades raciais, com a repressão aos negros a sul à conta das leis Jim Crow, e da exploração económica e laboral dos mesmos a norte, quando muitos achavam que este local seria a “terra prometida” onde finalmente seria livres.

Passado numa única tarde na década de 1920, em Chicago, este projeto com produção de Denzel Washington foi anunciado primeiramente ao mesmo tempo de “Vedações”,  também ele baseado numa peça teatral assinada pelo vencedor do Pullitzer August Wilson, dramaturgo que ao longo da sua carreira centrou-se a narrar as experiências e legado da comunidade afro-americana no século XX.

No “olho do Furacão” está  a lendária “Mãe do Blues”, Ma Rainey (Viola Davis), figura de personalidade vincada, entre a diva, a justiceira e a mulher que olha pelos seus, ciente que os seus dotes musicais servem para alimentar os bolsos dos brancos, embora a sua música tenha como destino a comunidade negra.

Ma Rainey e a sua banda encontram-se num espaço para a gravação de um disco e é aí que temperatura e tensão elevam-se progressivamente até um final tão explosivo como deprimente sobre a condição humana. É que no meio dessa banda está lá um trompetista, Levee (Boseman), com tanta qualidade como traumas que demonstram que por trás de toda uma camada de aparente arrogância e sede pelo protagonismo está alguém fragilizado pela violência racial.

É entre tentativas de performance, o stress dos produtores, as exigências de Ma Rainey e as frustrações do trompetista à procura de liderar a sua própria banda, que “Ma Rainey’s Black Bottom”  se constrói, sempre num ritmo acelerado de discussão sobre o que é ser negro na América, e na aparente inaptidão de mudar as coisas numa sociedade profundamente hierarquizada. Deus também é chamado à equação, e é aí que Chadwick Boseman consegue expandir a sua personagem além da superfície e entregar a sua melhor participação de sempre. É que vistas as coisas, não é só August Wilson que durante a sua vida se preocupou em retratar a condição negra nos EUA. O próprio Chadwick fez isso consecutivamente em vários papéis no cinema, fosse ele o jogador de basebol Jackie Robinson em “42“, o famoso defensor dos direitos civis Thurgood Marshall (Marshall), ou James Brown em “Get on Up“. E não esquecer, claro, “Black Panther”, símbolo máximo da emancipação negra nos comics, no cinema para massas e na construção (e desconstrução) do super-herói típico.

Poderia haver a tendência, do pensar a quente e com o coração, devido ao seu desaparecimento este ano, de elevar Chadwick Boseman além do que merece no seu papel de Levee, mas neste caso a sua pujança, destreza e expressividade elevam esta interpretação em relação às outras, não havendo por aqui qualquer tipo de condescendência ou homenagem quando afirmo que este é mesmo o seu melhor papel no cinema. Já Viola Davis – que também era figura de destaque em “Vedações” – mostra mais uma vez uma força e carisma em palco que a colocam facilmente naa lista das melhores atrizes na ativa. A potência em palco dos dois atores, e das suas personagens, na luta por serem o foco das atenções, origina um combate admirável repleto de dramatismo e elevação.

No final, George C. Wolfe consegue fazer uma boa adaptação do trabalho de August Wilson, entregando um belo prato de cinema a partir de um um objecto teatral, apenas reduzido ao streaming pelos selo de produção que tem.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
ma-rainey-viola-davis-e-chadwick-boseman-sublimes-em-drama-regado-a-bluesViola Davies e Chadwick Boseman sublimes em drama regado a Blues