“Sinto uma certa inquietude, como uma sensação de mau presságio. (…) Não, não noto nada em particular”.

Palavroso, não fosse este um exercício de dramaturgia verbal materializada num filme de 3h20 baseada na prosa filosófica de Vladimir Solovyov (1853-1900), a nova longa-metragem do romeno Cristian Piu – longe do naturalismo que se tornou marca – revela-se um exercício milimétrico de precisão na direção artística, na fotografia e no som (tremendo na sugestão do que não se vê), onde as influências pictoriais e um discurso que se quer celestial bradam por Grande Arte – lá diria Alexandre Sokurov – muito além do exercício estético, narrativo e de atuação a que o cinema se rendeu.

Acredito ter torturado o público”, disse-nos Piu em entrevista sobre a sua obra, e não está longe da verdade, mas não no sentido tedioso e glaciar de eventos inexistentes (um desmaio, umas mortes rompem os diálogos contínuos) com que muitos carimbam este cinema “chato” por estarem absortos de imagens rápidas de entretenimento com respostas simples e imediatas que tatuam concepções sobre o que deve ser a 7ª arte. 

É que esta viagem por entre conversas de uma classe em decadência sobre religião, política, amor, morte, moral e ética (e a falta delas), envolvidas sempre em dispersões que servem de refúgio camuflado às fragilidades dos discursos e da sua situação, canibaliza-se – tal como essa mesma cínica aristocracia – ao sucumbir derradeiramente na sua reta final num mero registo de teatro filmado que vai perdendo lustro cinemático, e que agora apenas se apresenta acompanhado da cascata verbosa formal profundamente exaustiva e ilusória no alcance de uma verdadeira cogitação sobre uma Grande Europa a antever crispações.

O sentimento de esmagamento que o espectador sente a todo o momento perante a alegada imponência de tudo isto, retira a “Malmkrog” força (sustentação) e humildade, negando o prolongar do desejo em acompanhar esta tertúlia filosófica numa mesa prestes a ser revirada pela História. E nisto apercebemos-nos que este monumental casarão é nos seus andares superiores um castelo de ar, tão vago, tão escasso de sentimento, tão rico em presságios, como disperso em teorizações e elucubrações que alienam da verdade as (in)justiças que tocam.

Mas esta não é uma viagem perdida, apenas equivocada na sua real dimensão.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
malmkrog-inquietude-pressagios-e-o-nada-em-particularO sentimento de esmagamento que o espectador sente a todo o momento perante a alegada imponência de tudo isto, retira a “Malmkrog” força (sustentação) e humildade