O prato mais polémico do cardápio da Berlinale 2020, com especiarias da Primavera Romena diluídas em 3h40 de debate sobre o declínio das aristocracias do Leste Europeu, “Malmkrog” é um acontecimento na capital alemã pela precisão do cineasta Cristi Puiu na recriação de uma glória continental (e moral) perdida. “Proustiano” até a medula, esta adaptação da prosa filosofa de Vladimir Solovyov (1853-1900) devolve ao realizador de “A Morte do Sr. Lazarescu” (2005) um prestígio de cineasta-autor da inquietude.
No seu austero novo filme, uma condessa, um político, um general e um latifundiário reúnem-se para falar sobre impérios em chamas. Numa conversa com o C7nema, em Berlim, o cineasta de 52 anos falou de doações: “Ser generoso não é dar o que se tem, é dar o que sé é“.
Qual é o critério para a exuberante palete de cores com que tinge a decadência num cinema de palavra?
De palavras trocadas num jogo de plano x contraplano. Uso sempre pinturas como referência e não filmes. No meu cinema, o texto acompanha e reflete a textura. Usei quadros do Leste Europeu do século XIX em que as cores expressam estados de poder, mas como diferentes camadas, como se fossem uma boneca russa. O vermelho descreve a realeza. Uma gravata azul sugere uma algema histórica. O cinema é mais do que a imagem, é mais do que a atuação, é mais do que o guião: é um estado de espírito onde o resultado não é dado pelo artista, mas pelo público. E, aqui, eu acredito ter torturado o público. Nem queria que o filme entrasse na competição, para não ter comparações com os outros. Queria apenas que Berlim desse o recado de que ele existe, ajudando ao seu lançamento.
Que veias poéticas o livro de Vladimir Solovyov abriu no seu entendimento dessa Europa que ruiu?
Li a obra dele em 1993, 1994, sabendo que ela havia sido banida oficialmente da URSS, durante o governo comunista, em parte, porque aquele bloco de poder se canibalizou. E essa canibalização está anunciada no retrato que a literatura de Solovyov pinta. É a História de um mundo onde a ideologia matou quem a seguiu.
E como é recriar esse tempo?
Não é questão de uma restauração do passado, de recriação. É questão de bloquear informações do nosso presente que embotem o nosso entendimento daquele universo da memória. Não posso deixar que a plateia estranhe o facto de não haver ninguém de jeans em cena. Não havia jeans na época que retratamos. Mas existem os jeans hoje, na vida quotidiana das pessoas. E são elas que controlam a experiência estética da receção da narrativa. Um pescador controla até a velocidade com que atira a rede, mas não os movimentos do peixe. Com a troca artística também é assim.
(texto originalmente publicado em fevereiro de 2020)

